Retoma
ainda não chegou à FIL De Susana Esteves
Semana nº 714 de 21 a 28 de Outubro de 2004
Paula Januário é
peremptória: as adversidades económicas
e a falta de adesão das empresas ameaçam
o futuro desta feira
Já foi a feira das vaidades,
já conseguiu reunir muitos grandes nomes
da nossa praça e já conseguiu encher
muitos pavilhões de novidades e projectos
que enchiam os olhos dos investidores de cofres
recheados. Acontece, porém, que a agora Comtec
já não é o que era: a vaidade
deu lugar ao instinto mais prático e realista
das empresas, dos muitos pavilhões só
existem alguns (mal cheios) e investidores endinheirados
é algo já muito escasso.
Se reconhecermos à antiga Inforpor a função
paralela de barómetro do mercado, a edição
deste ano não traduz ainda a retoma do sector,
tal como explica em entrevista ao Semana a directora
da Certame, Paula Januário. Prova disso é
que, apesar de a Comtec agrupar quatro feiras, a
edição deste ano ocupará os
mesmos dois pavilhões. A pouco menos de um
mês da inauguração da feira,
ainda se estavam «a fechar contratos»,
criticou a responsável.
Semana
Informática – Porquê a decisão
de adoptar este novo modelo que agrupa quatro feiras
numa só? Paula Januário – Chegámos
à conclusão que o nosso mercado é
muito pequeno para comportar várias feiras.
O mercado das tecnologias estava representado em
diversos sectores por feiras correspondentes com
uma base tecnológica, o que originava por
parte de empresas transversais a opção
por apenas uma das feiras ou mesmo por não
estarem em nenhuma delas. Assistia-se a uma difusão
quer de empresas como de visitantes de feiras.
Como mercado pequeno que somos, a nossa ideia assentava
na organização de um só evento
forte, representativo deste mercado tecnológico
de forma lata. A melhor forma de o conseguirmos
foi criarmos um só feira num só momento,
representativa dos vários sectores, de forma
a trazer valor acrescentado para a empresa expositora
e para o visitante da feira. Esta era uma ideia
que tínhamos já há algum tempo,
não apareceu apenas este ano.
S.I. – Se já estava previsto
o avanço deste modelo em anos anteriores,
porquê só agora? P.J. – Porque não é fácil.
Por trás estão as entidades autónomas,
diferenciadas, que as organizam. Cada feira era
organizada por uma entidade diferente e tudo isso
obrigou a um esquema de parcerias que não
é fácil de criar. Tivemos de batalhar
nesse sentido. Conseguimo-lo o ano passado ao convidarmos
a Expotelecom, que aceitou juntar-se a nós,
e este ano avançámos para o sector
da imagem, que achamos estar perfeitamente integrado
no das tecnologias.
Trabalho em parceria
S.I. – Quais são as principais
dificuldades de trabalhar em parceria com estas
entidades? P.J. – A primeira e principal questão
que custou mais a ultrapassar foi convencer as organizações
de que o caminho certo seria trabalharmos em parceria.
A segunda foi informar o mercado nesse sentido,
conseguir passar a mensagem e fazer com que fossem
compreendidos os argumentos que levaram a esta junção
ou ao aparecimento de um evento como a Comtec. Não
estamos aqui para acabar com as quatro feiras anteriormente
existentes. Mantemos as características de
cada uma delas sob o chapéu de uma nova feira
que possa representar cada um desses sectores.
S.I. – Cada organizador continua a
tratar da sua própria carteira de clientes? P.J. – Para o público e para
os clientes somos um só. Se um cliente das
telecomunicações resolver falar com
a Certame, damos seguimento ao processo. Para todos
os efeitos, há mais do que uma organização
subjacente a toda esta feira, mas para o público
somos apenas um só.
S.I. – O que vão ganhar empresas
e visitantes com esta junção das feiras?
P.J. – Vão, num só espaço,
poder contactar com empresas de diferentes áreas
tecnológicas.
S.I. – A resposta das empresas expositoras
foi positiva quanto a este modelo? P.J. - Não temos feedback negativo
nem positivo, o que quer dizer que as coisas estão
a correr bem, pois quando correm mal somos os primeiros
a saber. Uma empresa que vai a uma Expotelecom e
que também quer estar presente numa Inforpor,
ou que já estava em ambas, poderá
optar agora por ter um espaço maior ou, em
alguns casos, simplesmente por estar presente, porque
há muitos casos de empresas que abandonaram
as feiras exactamente por essa divisão de
budgets que não fazia muito sentido.
S.I. – É por isso que temos
vindo a assistir cada vez mais a empresas que são
acolhidas nos stands dos parceiros? P.J. – Isso vai continuar. Esta é
uma filosofia que estará cada vez mais forte
porque é uma forma de viabilizar a presença
e de, como se costuma dizer, dividir o mal pelas
aldeias. Se nós, enquanto organizadores de
feiras, optamos por parcerias, pensamos que a forma
de viabilizar a presença de uma empresa numa
feira é exactamente seguir esse caminho.
S.I. – Com este modelo nota maior
adesão por parte das empresas em relação
ao ano anterior? P.J. – Noto maior interesse, independentemente
de este se ter revertido, ou não, em adesão.
O mercado estava à espera que alguma coisa
mexesse, estava à espera de alguma novidade,
e com este modelo de feita suscitámos essa
novidade e esse interesse. Infelizmente, a adesão
já não tem tanto a ver com o modelo
da feira, mas com a capacidade das empresas. Algo
muito positivo este ano é que estamos a ter
empresas que nunca tivemos, com espaços reduzidos,
é certo, mas o importante é estarem.
O retorno das presenças megalómanas
não existe, nem nesta feira nem em nenhuma.
Há que pesar e equilibrar muito bem a presença
nestes espaços.
Uma feira mais profissional
S.I. – Que alterações
serão mais visíveis este ano? P.J. – A feira está mais profissional.
Antecipámos um dia e acabámos com
o domingo. O evento continua a ter um carácter
híbrido porque foi essa a resposta que tivemos
do mercado, mas de forma perfeitamente harmonizada
dentro da feira, com horários próprios.
Ou seja, teremos três dias profissionais com
conferências que funcionarão como alicerces
de cada dia. Não pretendemos que os temas
que lançámos em cada dia sejam redutores
– o objectivo é que estes sejam orientadores
da conduta dos expositores dentro da feira. Desta
forma, podem criar acções apropriadas
a cada dia e temática.
S.I. – Que principais entraves estão
a verificar? P.J. – Negociámos com alguns
dos expositores e empresas mais importantes a um
mês da feira, o que é negativo para
a imagem que queremos passar. O nosso objectivo
era termos fechado tudo com alguma antecedência
para que pudéssemos divulgar a feira e para
que outras empresas viessem atrás. Fazendo
uma análise dos últimos anos podemos
concluir que, cada vez mais, as decisões
são tomadas em cima da hora, o que é
negativo para todos. Afecta essencialmente as empresas
que podem e querem estar na feira e o próprio
público visitante. Depois acabamos por assistir
a empresas que estão na feira mas que não
planearam a sua presença e que não
contactaram os seus clientes. Mas isto passa-se
em Portugal, porque temos empresas espanholas que
já fecharam negócio connosco em Março.
S.I. – Então esta ainda não
vai ser a feira que vai traduzir a retoma do sector?
P.J. – De todo. Uma feira é
um barómetro do mercado. Se este está
mal, a feira está mal. Se as empresas investem
menos, a feira vai ser pequena. O mercado não
quer apostar e acaba por se tornar cada vez mais
fraco.
S.I. – A falta de adesão verifica-se
por uma questão de budget ou as feiras estão
a perder crédito junto do mercado empresarial
português? P.J. – Este é o nosso mercado
e as empresas ou se movem nele ou estão aqui
apenas porque querem avançar para outros
pontos geográficos. Mas se quiserem captar
o nosso mercado têm de agir nesse sentido
e o melhor local são estas feiras. Começamos
a ter cada vez mais empresas espanholas a entrarem
no mercado português e a quererem marcar presença
nestas feiras, uma situação que nos
ultrapassa. Temos um espaço privilegiado
onde os players se podem movimentar e mostrar. Enquanto
organizadores, procuramos perceber junto das empresas
se vale a pena haver uma feira. Tivemos a preocupação
de, em Janeiro, começarmos com reuniões
de oscultação junto das empresas que
identificamos como alicerces do mercado e a primeira
pergunta que fizemos foi: vale a pena haver uma
feira em Portugal? A resposta foi afirmativa e a
Comtec vem ao encontro daquilo que o mercado pediu.
As feiras mudaram e, especialmente em Portugal,
são cada vez menos palco de lançamentos
e de novidades, porque hoje em dia, com a celeridade
dos mercados, ninguém espera para lançar
seja o que for. Existem feiras lá fora, essas
sim feiras universais e representativas de um sector
ou de um nicho de mercado, e as empresas, quando
têm de lançar algo, esperam por essas,
pois dispõem de uma representatividade muito
diferente das feiras em Portugal.
S.I. – Dos quatro sectores da Comtec,
qual é o que se mostra mais receptivo à
feira? P.J. – O que se mantém mais
forte é o sector das TI, facto que também
se explica por ser um mercado maior. Temos um espaço
idêntico ao que tivemos o ano passado, ou
seja, os pavilhões um e dois. De qualquer
forma, as pessoas não vão notar uma
divisão física das feiras.
S.I. – Os mesmos dois pavilhões
vão alojar quatro feiras... P.J. – Também pensámos
que pudesse haver mais pavilhões. Pensámos
que esta feira poderia ser vista como sintoma de
alguma retoma e da vontade das empresas em apostarem
neste mercado e na visibilidade que têm no
mesmo. Infelizmente, não será ainda
este o ano da grande retoma, simplesmente porque
esta não existe.
Preço
alto S.I. – Uma
das queixas que as empresas fazem é que o
preço de aluguer dos stands é muito
elevado. O modelo de negócio da feira foi
revisto? P.J. – Dizem que é alto e vão
continuar a dizer que é alto. Esse, para
nós, não é o argumento certo.
Acreditamos que o preço da feira é
alto, aliás os de todas as feiras em Portugal.
Infelizmente, essa é uma questão que
não podemos ultrapassar porque somos arrendatários
de espaço e não proprietários
e por isso temos de nos cingir às regras
existentes, bem como aos preços que os proprietários
nos fazem. Mas conseguimos reduzir esse esforço
para o expositor, tendo em conta que as feiras que
estão subjacentes à Comtec existem
há 21 anos e têm mantido o preço
do espaço.
S.I. – Perde-se dinheiro nas feiras?
P.J. – Não se perde dinheiro,
porque elas existem autonomamente. Deixou-se foi
de ganhar o dinheiro que se ganhava.
S.I – Em termos de estratégia
e de argumentos de venda, em que incidiu a vossa
aposta neste modelo de feira? P.J. – Dentro deste modelo houve uma
aposta muito grande ao nível dos conteúdos,
porque achámos que foi o que faltou nas feiras
anteriores. Para além das conferências
vamos ter conteúdos dentro da área
de exposição que passam por mesas
redondas, workshops diários sobre os temas
do dia organizados pelas associações
e duas grandes conferências. Uma delas, à
qual a UMIC se vai juntar, é, inclusive,
pioneira em Portugal e trata o tema da usabilidade.
A outra, que envolve a agência de inovação,
será sobre cooperação e virá
no seguimento do Fórum Iberoeca. Esta vai
permitir uma bolsa de contactos em que as empresas
portuguesas vão poder contactar com as empresas
ibero-americanas presentes no Fórum.
S.I. – Esta
falta de conteúdos e a fraca adesão
das empresas podem vir a comprometer a feira? P.J. – O período da “feira
das vaidades” chegou ao fim, até porque
era impossível continuar. As empresas gastavam
muito dinheiro para estar na feira e sabiam que
nunca poderiam ter retorno do dinheiro que investiam.
O mercado mudou e hoje em dia as acções
têm de ser ponderadas. Enquanto organizadores
de feiras temos também de alertar os expositores
para tudo isto. Relativamente aos conteúdos,
estes nunca estiveram dependentes de nós,
apenas criamos o espaço e esperamos que as
empresas tentem rendibilizar ao máximo a
sua presença.
Mercado
faz o modelo da feira
A
empresa responsável pela organização
deste evento, a Certame, entende que
deve ter uma postura flexível
e adaptar-se à realidade do
mercado.
A Certame estima que em 2005 as tendências
de mercado sejam muito diferentes,
e se existirem indícios que
obriguem a companhia a rever este
modelo e a optar por outro, assim
o fará. Paula Januário,
directora da Certame, acredita que
acima de tudo a empresa tem de ser
flexível. «De qualquer
forma, penso que este é o modelo
que melhor se ajusta às necessidades
deste ano», conclui Paula Januário.
Quando verificámos que
as empresas eram cada vez mais passivas e que estavam
à espera do que os vizinhos do lado faziam,
começámos a tomar os conteúdos
a nosso cargo. Vemos, por exemplo, que empresas
de concorrência directa estão cada
vez menos presentes na feira porque, simplesmente,
têm receio de perder clientes para os rivais,
o que é mau para o visitante, pois a característica
principal da feira é comportar vários
concorrentes para que o público possa optar.
Outra coisa que correu mal é que o grosso
dos contratos ocorreu um mês antes do início
desta feira, algo que é completamente incaracterístico.