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Semana Informática > Estratégia > Mercado de emprego está estagnado
 
De Ana Pinto Martinho
Semana nº 715 de 29 de Outubro a 4 de Novembro de 2004


Profissionais altamente especializados são os mais procurados num mercado que penaliza a falta de actualização

Os «loucos anos» da chamada «bolha da nova economia» passaram, os profissionais da área das Tecnologias de Informação e Comunicação já não são contratados sem uma boa reflexão e sem que o seus currículos e experiência sejam devidamente comprovados e avaliados. Hoje em dia é dada prioridade absoluta a profissionais altamente especializados que saibam acompanhar as tendências de mercado, tendo especial atenção as necessidades das empresas nas quais trabalham ou nas que pretendem vir a trabalhar. Os vencimentos usufruídos sofreram um ajuste à realidade do mercado e tendem a subir de acordo com a responsabilidade dos cargos e a qualidade do desempenho.

Em conversa com o Semana alguns responsáveis por empresas portuguesas de recrutamento admitem que o mercado de recrutamento está estagnado na área das TI, mas que os profissionais altamente especializados não têm dificuldades de colocação. Segundo estes responsáveis as colocações mais problemáticas são as de profissionais parados há algum tempo, que não se tenham actualizado ou que tenham certificações em áreas de baixa procura.

Programadores, engenheiros de sistemas certificados, analistas, engenheiros de telecomunicações, administradores de redes, supervisores e operadores de call centers, profissionais especializados na área da segurança são alguns dos perfis mais requisitados e que actualmente não têm dificuldade em arranjar trabalho.

Fernando Neves de Almeida, managing partner da Boyden afirmou ao Semana que houve alguma estagnação na procura, «mas que tal facto não obsta a que surjam recrutamentos na área em questão, quer de acordo com a rotação de pessoas, quer de acordo com a actualização e com a evolução do tecido empresarial».

Consultor de recursos humanos da Manpower, Miguel Cardoso também corrobora a opinião de que os perfis técnicos inerentes a área das TI são muito mutáveis, e tanto empresas, trabalhadores e até empresas recrutamento e selecção, têm de se actualizar/reciclar frequentemente. «É certo que cada vez mais temos assistido a cenários em que predominam os progressos e as transformações tecnológicas, o que por sua vez, influencia os fluxos no mercado de trabalho, bem como a formação e competências técnicas requeridas para cada função ou (novo) posto de trabalho», comenta.

Miguel Ângelo Santos, assistente de marketing da Select acredita que «o mercado actual de recrutamento ao nível de TI está numa fase de retoma cautelosa, isto porque apesar de existir uma maior necessidade de recursos, numa primeira fase os clientes têm vindo a comprar serviços em regime de outsourcing, os quais mais tarde se podem vir a tornar recrutamentos definitivos». Este responsável reforça a tónica da procura de perfis especializados e salienta que hoje em dia se exige um nível de conhecimentos e experiência comprovadas.


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Ordenados estagnados
Após uma quebra em relação aos ordenados praticados nos anos dourados da nova economia, que foram, segundo a opinião de vários analistas, altamente inflacionados, a tendência actual é para um ajuste à realidade do mercado. De qualquer forma, os profissionais altamente especializados e com grandes responsabilidades continuam a ser bastante bem remunerados. O «Estudo Salarial», da Hays Personnel, apresentado em meados deste ano, e que analisa a realidade relativa ao ano de 2003, vem corroborar a opinião dos responsáveis consultados pelo Semana, ao salientar que os trabalhadores especializados e/ou mais experientes mantiveram o nível salarial, enquanto os trabalhadores com competências mais indiferenciadas (dentro da área das Tecnologias de Informação e Comunicação) ou recém-chegados ao mercado de trabalho viram os seus salários baixar.
Por exemplo, segundo Miguel Cardoso, se estiver em causa a procura de trabalhadores para uma nova área deste sector e na qual hajam poucos profissionais disponíveis, isso pode implicar uma subida no valor remuneratório, para desta forma facilitar o recrutamento. Tirando este exemplo, o responsável da Manpower acredita que as remunerações neste ramo profissional se têm mantido, estando dependentes, como todas as áreas, das leis da procura e da oferta.

Fernando Neves de Almeida comenta que «regra geral, os ordenados estagnaram e, em alguns casos, sofreram reduções, de acordo com a diminuição da procura e de acordo com a inflação que conheceram até ao período da adopção do Euro».

Também Miguel Ângelo Santos fala de uma quebra de valores relacionada com a inflação dos salários por factores pontuais, como o bug do ano 2000, a passagem do escudo para o euro e a febre das dotcom. «O que sucedeu foi um ajuste à realidade do mercado, conjugada com o crash das empresas tecnológicas, actualmente os ordenados tendem a subir, mas de uma forma mais equilibrada em que a qualidade é factor determinante para um bom vencimento», afirma.


 
   
Perfil vencedor
Se trabalha ou quer trabalhar na área das TIC fique a saber que, segundo os responsáveis que consultámos, o perfil mais procurado nesta área é o de um profissional sofisticado e altamente especializado.

Actualmente os trabalhadores mais procurados são, segundo Miguel Ângelo Santos, os programadores, helpdesk e engenheiros de sistemas certificados. Para além disso, na opinião deste responsável, algumas das especializações mais procuradas em termos de programação são na plataforma .Net (linguagens C#, VB, ASP), linguagem C e C++ e em termos de engenharia de sistemas podem ser apontados como exemplo os profissionais certificados em MCSE (Engenharia de Sistemas Micrososft) e especialistas em Unix/Linux.

Curiosamente, segundo Fernando Neves de Almeida o perfil mais procurado contempla profissionais sofisticados, nomeadamente no capítulo da gestão. Este responsável salienta que as posições de direcção global ou de projectos, incluindo componentes de consultoria, posições de carácter comercial e posições especializadas, destacando-se a área de segurança, têm muita procura.
Miguel Cardoso acredita que não se pode falar em áreas mais procuradas, «no entanto, analistas/programadores SAP, engenheiros telecomunicações – investigação e desenvolvimento, ou outras áreas específicas como administradores redes, supervisores e operadores call center têm sido áreas procuradas na Manpower».

Assim, poderemos concluir que são procurados, sobretudo, profissionais de elevado nível, para preencher vagas com grande nível de responsabilidade.

Se é um profissional desta área e as suas qualificações não muitas ou a sua aposta formativa recai sobre sistemas em desuso, está na altura de pensar no seu currículo e apresar-se a conseguir uma especialização mais consentânea com as actuais exigências de mercado. Pois nas palavras de Fernando Alves de Almeida, pessoas com qualificações menos evoluídas e mais ligadas a sistemas em desuso são as que têm mais dificuldade em arranjar trabalho.
Também Miguel Ângelo Santos reforça que os profissionais com falta de procura são aqueles que possuem um baixo grau de habilitações e que, ou não têm certificações, ou têm certificações inadequadas ao mercado actual. A experiência deste responsável diz que os recém-licenciados têm muito melhor aceitabilidade junto do mercado que os profissionais com baixas habilitações.


Desemprego não é elevado
A maior instabilidade profissional e a falta de emprego atingem sobretudo pessoas com baixas qualificações e sem experiência comprovada. Apesar de haver algum desemprego, os responsáveis que aceitaram falar sobre este assunto com o Semana, garantem que não é significativo. A falta de uma oferta significativa e atraente é apontada por alguns como uma das razões para que haja grande desemprego na área.

O facto de as empresas oferecerem aos seus trabalhadores a possibilidade de rotação em novos projecto e inclusive a hipótese de fazer cursos de formação também ajuda a que os índices de desemprego não sejam muito elevados. No entanto também esta oferta de formação está a mudar, segundo um recente estudo Hayes Personnel já citado acima, os profissionais da área das Tecnologias de Informação e Comunicação sentiram que em 2003 as oportunidades de formação profissional proporcionadas pelas empresas para as quais trabalham diminuíram. O estudo salienta que, no ano transacto, as empresas gastaram muito menos dinheiro na formação dos seus empregados, sendo este tipo de investimento feito mais ponderadamente e em situação de extrema necessidade.

Segundo Miguel Ângelo Santos, da Select, «em relação ao passado recente, existe uma seriação em relação aos recursos disponíveis, ou seja uma elevada percentagem de profissionais qualificados e habilitados estão colocados em posições adequadas, enquanto que uma grande franja de pessoas com baixas qualificações e/ou experiência estão em situações de emprego temporário ao nível de funções mais baixas ou no desemprego».

Apesar de haver desemprego, é difícil encontrar pessoas com determinados perfis. Miguel Cardoso observa que, ao nível do recrutamento de determinados perfis, pode por vezes haver alguma dificuldade em encontrar-se certos profissionais disponíveis no mercado, ou até profissionais com as competências técnicas requeridas, pelo que tem havido um enfoque na formação intra-empresarial e/ou reciclagens constantes, o que acaba por ser uma solução nestes casos. Este responsável acredita que o recrutamento nesta área se tem mantido em alta, embora obedecendo às leis da oferta e da procura, sendo por vezes mais complicado a angariação de candidatos, ao nível de perfis técnicos de tecnologias muito especializados.

 Emprego Garantido

- Elevado nível de especialização
- Experiência comprada numa determinada área
- Cargos elevado a nível hierárquico
- Habilitações elevadas (preferência para licenciados e muitas vezes recém-licenciados)
- Programadores, engenheiros informáticos, helpdesk, engenheiros certificados
- Certificações em áreas em alta (exemplo: SAP, engenharia de sistemas Microsoft, especialistas em Unix/Linux)
Nota: Os dados apresentados não são fruto de estudo apurado, são apenas retirados da generalidade das respostas obtidas pelo Semana no contacto com as empresas de recrutamento citadas.

Fernando Neves de Almeida, da Boyden, destaca que «apesar de não existir uma oferta tão significativa e tão atraente, não existe um desemprego muito elevado nesta área, até porque muitos dos seus profissionais rodam, no quadro de projectos, e/ou assumem situações de freelancer».
O nosso interlocutor da Manpower, Miguel Cardoso, deixa um conselho que se pode revelar de extrema importância para os profissionais da área das TIC: «os profissionais de TI deverão dar importância à formação pessoal, de forma a constituírem uma real uma mais valia no mercado, isto porque, pode ser complicado recolocar um profissional de TI inactivo, se este estiver parado há tempo suficiente para se ter desactualizado na apreensão de novos conteúdos».
 
 
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