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Tecnológicas aumentam capacidade de internacionalização
De Fátima Caçador/Casa
dos Bits
A estratégia empresarial
virada para o mercado interno, que muitas empresas
portuguesas cultivavam, está a ser gradualmente
substituída por uma vontade crescente de
competir a nível global
Definida pelos gurus da economia como um factor crítico para ganhar
escala, a capacidade de internacionalização das tecnológicas
portuguesas parece estar a aumentar e a dar resultados com números
promissores. Os sinais de mudança da estratégia das empresas,
com maior atenção ao mercado global, revelam-se nos números
de crescimento das exportações, de forma geral, e mais especificamente,
nos produtos de alta e média/alta tecnologia e trazem esperanças
de uma alteração de ciclo da economia.
Os valores divulgados na semana passada pelo Instituto
Nacional de Estatística
e a sua análise realizada pelo Gabinete de Estudos e Estratégia
do Ministério da Economia confirmam a inversão da tendência
de exportação de produtos de baixa tecnologia, que o coordenador
do Plano Tecnológico, Carlos Zorrinho, reconhece como positiva. «A
economia portuguesa voltou a crescer tendo como motor as empresas, as exportações
e competitividade. É um crescimento saudável que não é originado
no factor custo mas tecnológico, com as exportações
a incorporarem cada vez mais tecnologia e os produtos a dirigirem-se a
mercados mais sofisticados», adianta.
Nos primeiros meses deste ano uma tecnológica assumiu pela primeira
vez a liderança nas exportações. O lugar de topo foi
alcançado pela Qimonda (ex-Infineon) que tem actualmente a maior
fábrica europeia de montagem e teste de produtos de semicondutores
localizada em Vila do Conde. A empresa contribuiu em 10,7 por cento para
a exportação de produtos portugueses, um facto reforçado
pelo maior enfoque em produtos de maior valor acrescentado.
Carlos Zorrinho reconhece que a tendência de aumento das exportações
com mais tecnologia é significativa mas que as mudanças serão
progressivas. «À medida que as empresas evoluem para o desenvolvimento
de produtos mais tecnológicos é preciso apostar na formação
e nas competências da população para dar resposta a
esta mudança de ciclo».
O Plano Tecnológico, uma das bandeiras do governo de José Sócrates,
tinha definido como meta atingir os 11,4% de exportações
de alta tecnologia até 2010. «Em dois anos já ultrapassámos
essa meta, com o contributo das empresas […] O nosso objectivo agora é aproximar
os valores da média europeia que se situa nos 17,8%», sublinha
o coordenador do Plano Tecnológico».
Ventos favoráveis
O contributo das tecnologias da informação
e comunicação
para o crescimento das exportações de alta tecnologia é reconhecido
pelo primeiro-ministro José Sócrates e por Carlos Zorrinho,
que destacam a capacidade do sector e a confiança que tem mostrado
na internacionalização. Mas, apesar do optimismo geral quanto à capacidade
de mostrar competências fora das fronteiras, os líderes das
tecnológicas portuguesas que avançaram para a internacionalização
mostram-se cautelosos e atentos aos obstáculos que é preciso
enfrentar.
Rogério Carapuça, presidente da Novabase, tem uma experiência
de internacionalização relevante em todas as áreas
de negócio da tecnológica, e partilha do optimismo revelado
pelo primeiro-ministro. «De facto, a natureza das nossas exportações
está a mudar significativamente para áreas de maior valor
acrescentado. A intensidade tecnológica também está a
aumentar. Esta tendência deverá ser confirmada no futuro e é muito
positiva», afirma.
A empresa que lidera vendeu «81 milhões de euros fora de Portugal
o que faz de nós, por larga margem, a empresa portuguesa que mais
vende no estrangeiro no nosso sector», adianta o presidente da Novabase.
A TV Digital assume o maior peso das receitas fora de Portugal (58,1% com
47,1 milhões de euros), seguindo-se a área de mobilidade
(com 22,9%) e consulting (com 12,8%).
Também no topo das exportações de TI está a
Altitude Software, reconhecida como uma das empresas portuguesas de TI
com maior presença internacional já que garante 80% das suas
receitas fora de Portugal, mantendo clientes em 58 países. A empresa
de software está directamente em dez países, onde tem
subsidiárias (Espanha, França, Bélgica, Reino Unido,
Brasil, México, Estados Unidos, Canadá, Dubai e Israel),
para além de escritórios de representação na
República Popular da China e nas Filipinas.
Gastão Borges Taveira, presidente do Conselho de Administração
e CEO da Altitude Software, mostra-se porém cauteloso quanto à tendência
de Portugal se afirmar como um país de exportação
de tecnologia. «Portugal ainda está numa fase incipiente de
afirmação nessa dimensão. Existe claramente falta
de massa crítica que permita afirmar o país nos mercados
tecnológicos». No entanto, ressalva que «também é possível
afirmar que se tem vindo a adquirir dimensão e se vão multiplicando
os exemplos positivos nesta área».
Da mesma forma Rogério Paiva, da WeDo Consulting, considera que «apesar
de Portugal ter todas as condições para tal, ainda é muito
cedo para afirmar que somos um país de exportação
de tecnologia». A WeDo Consulting anunciou recentemente o reforço
da sua capacidade de prestação de serviços no Brasil
com a aquisição de uma companhia local, a Tecnológica,
que se dedica ao desenvolvimento e fornecimento de soluções
de tratamento de dados para a indústria das telecomunicações
e mantém representações no Rio de Janeiro, em São
Paulo, Brasília e Salvador.
Para além desta compra, a empresa liderada por Rui Paiva tem apostado
na área das telecoms, em especial com a oferta de revenue assurance, «tendo
por base os hubs Ásia-Malásia, África e Médio
Oriente-Egipto, América Latina-Brasil e México, Europa do
Sul-Portugal e Espanha, CEE-Polónia e Holanda e Reino Unido».
Falta de dimensão e formação
acentuam dificuldades
A par dos bons sinais de internacionalização
que se espelham em muitos casos, as dificuldades também existem
e centram-se sobretudo na falta de dimensão e na dificuldade de
encontrar quadros com capacidade para dar resposta à necessidade
de maior qualificação
que diferencia os projectos.
«Ainda temos algum caminho a percorrer no sentido de consolidarmos a
afirmação de sermos um país exportador de tecnologia» defende
Luís Dias, administrador da Vantyx Systems, uma empresa que está presente
em Espanha, Europa de Leste e Angola. No entender deste responsável, «Portugal
tem que actuar em dois vectores fundamentais: alargar de forma decisiva os
seus mercados de exportação, variável procura, e criar
condições internas, ao nível da formação
de quadros, variável oferta, que sustentem o seu go to market; se não
actuarmos nestas duas vertentes não passaremos, a médio prazo,
de fornecedores de mercados de nicho».
Paulo Rosado, CEO da OutSystems, acrescenta ainda que embora o factor localização
tenda a perder importância, as particularidades de cada mercado implicam
um esforço e um investimento adicionais. «Os primeiros passos
em cada mercado são difíceis, particularmente para as empresas
nacionais. Tem havido passos positivos no apoio dado à internacionalização
pelas entidades competentes mas há ainda um conjunto de medidas
a tomar para nos colocar a par de outras estruturas existentes nos restantes
países europeus».
Desde que a OutSystems foi criada em 2001 tem seguido uma estratégia
de internacionalização e dois dos primeiros clientes da empresa
são internacionais, um holandês e outro espanhol. Actualmente
a empresa opera em Portugal, Espanha, Reino Unido, Holanda e Estados Unidos,
tendo sido estabelecidas parcerias para outras regiões, por exemplo
no Brasil.
A América Latina e os países africanos de língua oficial
portuguesa (PALOP), a par dos parceiros da União Europeia, continuam
a assumir um peso significativo nas experiências de internacionalização
das tecnológicas portuguesas, mas outros mercados não tradicionais,
com os Estados Unidos, o Norte da Europa e o Extremo Oriente, começam
a ganhar dimensão, oferecendo desafios de maior competitividade
e mais especialização a que as empresas tentam responder.
Somando
as oportunidades globais, multiplicando os factores positivos e deduzindo
as dificuldades, a verdade é que ano após ano o número
de empresas de TIC que assegura negócios internacionais está a
crescer e os casos de sucesso se acumulam, até porque normalmente «dos
fracos não reza a história» e é fácil
esquecer os insucessos e as empresas que ficam pelo caminho.
| TIC
como motor de crescimento da economia |
«No último ano e meio,
Portugal está a exportar mais e melhor, com mais
valor acrescentado, e as empresas de tecnologias são
das que contribuem mais para este crescimento»,
afirmou na semana passada o primeiro-ministro, José Sócrates,
na abertura oficial da POR TI, a mostra de tecnologias
da informação dinamizada pelo Ministério
da Economia.
O chefe do Executivo reconhece que este é um sector dinâmico que
quer competir no mercado global e que tem um contributo muito importante como
motor da economia portuguesa. «Não há economia com futuro
se não concentrar na inovação, no conhecimento e na modernização
tecnológica o essencial do seu percurso. […] Se há uma área
económica que bem representa o casamento entre a inovação,
a tecnologia e o conhecimento é a das tecnologias da informação.
E o país precisa de saber que tem um sector com capacidade, com talento,
com energia e vontade sólida de trabalhar, no qual podemos confiar e apostar»,
sublinha José Sócrates.
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| Produtos
com alta intensidade tecnológica ganham peso |
«Nas últimas duas décadas
a estrutura das exportações portuguesas tem
vindo a mudar, com a redução progressiva do
peso de produtos de baixa tecnologia nas exportações – entre
os quais se incluem os têxteis, pasta de papel e produtos
reciclados – e o crescimento de vendas para o exterior
de produtos de média/alta e alta tecnologia. Entre
1989 e 2001, o peso dos produtos com alta intensidade tecnológica
triplicou e fixou-se nos 11,5 por cento, tendo subido para
12,5 por cento neste trimestre.
Os dados são os números de exportações declarados
ao INE no primeiro trimestre de 2007, que revelam uma variação
positiva face ao período homólogo de 2006 na alta e média/alta
tecnologia, nas exportações de produtos industriais transformados,
o que sustenta e reforça a tendência anterior.
Nas categorias de alta intensidade tecnológica são considerados
produtos relacionados com equipamentos de escritório e computação,
de rádio, TV e comunicações, a par com a aeronáutica,
produtos farmacêuticos e instrumentos médicos. Já na média/alta
tecnologia integram-se as máquinas e aparelhos eléctricos, assim
como veículos a motor e produtos químicos.
A propensão para a redução de exportações
de baixa e média baixa intensidade tecnológica (como têxteis,
pasta de papel e produtos reciclados) é cimentada nos últimos trimestres.
Ainda assim, o seu peso relativo é superior ao das restantes categorias,
somando nos primeiros três meses do ano de 2007 mais de 56% do total das
exportações – 35,1% para a baixa tecnologia e 21,6% para
a média baixa – enquanto a alta tecnologia assume um peso de 12,3%
e a média/alta de 31%.
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