Crise favorece adopção de soluções open source
De
Fátima Caçador / Casa dos Bits
Semana nº 909 de 19 a 25 de Dezembro de 2008
A oferta está mais madura, começa a desenhar-se um ecossistema de apoio técnico e existe maior conhecimento sobre open source. A crise económica pode também dar um empurrão
Ano após ano, a oferta de soluções open source cresce em maturidade e estabilidade, alargando-se dos sistemas operativos e plataformas Web às várias componentes necessárias à operação das empresas de diferentes sectores. O incremento do número de companhias que se dedicam à implementação de soluções open source e ao apoio técnico, assim como a maior notoriedade dos produtos, são mais dois factores que se complementam para uma equação favorável na análise do mercado português.
Depois de um ano considerado, de forma geral, bastante bom para a indústria do open source em Portugal, com a maioria das empresas que aposta nesta área a reportar crescimento de facturação significativo, o agravamento da crise económica pode ser o elemento que faltava para o ano de 2009 ser ainda mais positivo.
«Nada como uma boa crise para levar as pessoas a pôr em causa decisões que anteriormente seriam tomadas de forma leviana», defende João Miguel Neves, sócio-gerente da Intraneia, uma empresa especializada em serviços de informação. A opinião é comum entre as várias empresas contactadas pelo Semana, que destacam a necessidade de os decisores analisarem mais as soluções que lhes são propostas a nível de qualidade e racionalidade económica e não tanto pelas marcas associadas.
«Não há nada como a necessidade para ultrapassar preconceitos e abrir os horizontes. As poupanças no hardware estão a chegar ao limite. Vemos cada vez mais empresas a olharem para o software como a nova área de racionalização das despesas e optimização dos seus investimentos em tecnologia», justifica Paulo Vilela, arquitecto de sistemas na Sun Microsystems Portugal
A redução de custos e a procura por soluções com um custo total de propriedade (TCO) mais baixo têm o potencial para dinamizar o mercado e potenciar migrações para open source ou a adopção destas soluções na hora de comprar novas licenças ou escolher uma nova aplicação, mesmo contra alguns preconceitos que ainda existem em algumas empresas. «Os argumentos económicos podem compreensivelmente ganhar força na actual conjuntura. Vencidos os medos não racionais ou interesseiros sobre o open source, o custo global muito mais baixo é um argumento de peso», complementa Luís Arriaga, professor da Universidade de Évora e um dos promotores do projecto Alinex, uma distribuição portuguesa de Linux. Este lembra porém que existem outras razões, «talvez até mais profundas» para adoptar open source, alinhando «a não dependência nefasta de fornecedores, a capacidade de adaptação a necessidades específicas, o conhecimento de tudo o que os programas fazem, a promoção de standards abertos», entre outros argumentos. A mesma ideia é subscrita por Gustavo Homem, CTO da Ângulo Sólido e presidente da ESOP – Associação de Empresas de Software Open Source Portuguesas. «Não nos posicionamos como "soluções para tempos de crise". Com ou sem crise há vantagens a assinalar», defende. E a reflexão que os constrangimentos económicos precipitam pode fazer pender a balança no sentido das soluções open source.
Gustavo Homem lembra também que o crescimento da indústria de software open source é cada vez mais considerado por empresas tradicionais como uma oportunidade para desenvolverem produtos novos e que há um efeito económico positivo a nível do PIB e da balança comercial portuguesa. «Dado que o código open source se importa a custo zero o efeito na balança comercial é favorável. Esse código fonte transforma-se em produto final por via postos de trabalho nacionais. Gera-se trabalho e cria-se know-how. Os produtos e serviços resultantes são depois adquiridos por empresas nacionais gerando circulação interna. O efeito final é haver uma redução de custos para as empresas consumidoras, custos esses que ficam aplicados na economia nacional. Pelo caminho cria-se valor e ganha-se experiência», sublinha o presidente da associação que reúne empresas nesta área, promovendo a ideia de que o software open source é uma alternativa empresarial para Portugal, dando um contributo claro em termos de apoio e criação de valor.
Reconhecimento do mercado
O trabalho de divulgação que tem vindo a ser feito a nível nacional e internacional das soluções open source – muitas vezes posicionado como o grande concorrente dos gigantes de informática – e o reconhecimento da fiabilidade e credibilidade da oferta, fazem com que o esforço de venda das soluções seja agora mais reduzido, facilitando empresas com estruturas comerciais pequenas e muito enfoque no desenvolvimento e apoio técnico.
Do lado das multinacionais que mais têm apostado no open source, a análise da evolução do mercado é favorável, reconhecendo Jorge Soares, arquitecto de soluções IBM, que existe «uma clara e crescente consciencialização do mercado em relação a este tema».
Garantindo que as soluções baseadas em open source são hoje uma realidade, João Batista, director-geral da Novell em Portugal, lembra que para além dos sistemas operativos, bases de dados e aplicativos de Internet, onde as soluções de código aberto são mais visíveis, «o caminho do open source para outros níveis de acção dos sistemas de TI começa a ser uma realidade nas várias áreas de negócio».
Essa evolução é visível no ecossistema de empresas portuguesas que se especializaram em soluções e serviços nesta área. Para muitas das companhias que já estão há alguns anos no mercado, apostando em soluções de código aberto, o ano de 2008 trouxe melhorias significativas. É o caso da iPortalMais que desenvolve e distribui soluções baseadas em tecnologia open source (IPBrick e iPortalDoc) desde o ano de 2000. «Neste histórico de oito anos de trabalho em open source claramente o ano de 2008 foi o melhor de sempre da empresa», sublinha Raúl Oliveira, director-geral da iPortalMais, acrescentando que esse crescimento excepcional foi também sentido a nível internacional.
O mesmo é reportado por Mário Martins, sócio-gerente da JavaLi, focada na área de segurança, implementação e desenvolvimento de sistemas informáticos com base em sistemas e ferramentas de código aberto. «2008 foi um ano de franco crescimento, não só em termos de facturação, mas também no número de colaboradores e, em consequência, da capacidade instalada», afirma, justificando o facto com a ideia de que as empresas estão a reconhecer que «o open source é, no pior cenário, equivalente ao software comercial e que na grande maioria das vezes oferece mais vantagens, nomeadamente a adaptação mais fácil à realidade e contexto a que se destina».
Para além das empresas, também a administração central e local revelam maior abertura, como reconhece Paulo Ribeiro, CEO da Linkare, que para além do desenvolvimento de aplicações à medida e integração e migração de sistemas faz também consultoria e outsourcing em projectos desenvolvidos com recurso a tecnologia Java. Entre as várias razões apontadas para este facto por Paulo Ribeiro conta-se o «efeito de propagação resultante da adopção de soluções de código aberto por grandes organizações, nacionais e estrangeiras, públicas e privadas», assim como «a localização de número crescente de soluções de código aberto a par do suporte crescente por parte das empresas prestadores de serviços e as garantias associadas a contratos de manutenção sobre soluções de fonte aberta».
Embora reconheça que para a Caixa Mágica o ano de 2008 foi muito positivo na área de produto, com as soluções Linux Caixa Magica, e consultoria, onde o mercado empresarial está a responder muito positivamente, Paulo Trezentos, director técnico da empresa e professor e investigador no ISCTE, afirma não conseguir sentir de 2007 para 2008 uma mudança brusca que denote uma nova fase. «Tal como nos anos anteriores, temos vindo a sentir uma evolução sempre positiva mas sem saltos especiais», refere.
Concorrência saudável
A procura de informação do lado das empresas que querem integrar esta indústria é também cada vez maior, o que ajuda a criar um ecossistema mais robusto. «A ESOP tem sido questionada sucessivamente sobre se "faz sentido fazer este produto com open source?", "já existe solução open source para isto?" por empresas de TI que pretendem criar produtos novos. E recebemos muitos pedidos de inscrição na nossa lista de distribuição», sublinha Gustavo Homem, presidente da associação. No entanto, não deixa de adiantar que «curiosamente a integração com produtos open source é vista por outras empresas como uma ameaça face à qual se deve reagir agressivamente e é essa a postura que têm sempre que há oportunidade. Isto é recorrente em algumas áreas de negócio específicas».
A «agitação» que o crescimento da indústria de open source está a causar reflecte-se também em ofertas de pacotes e preços mais baixos por parte das empresas de software proprietário, um movimento que Paulo Trezentos, da Caixa Mágica reconhece. «É gratificante sentir que a pressão de concorrência que exercemos tem efeito em empresas de referência, mesmo que estas adoptem modelos diferentes», afirma.
No mesmo sentido, Paulo Vilela, da Sun Microsystems, admite que este é um sinal «de que já se aperceberam que estão a chegar ao fim os dias das enormes margens com que têm vindo a trabalhar. Os pacotes integrados são uma táctica mais eficaz, porque tiram partido de monopólios em certas áreas para os estenderem para outras. O senão é que o preço total do pacote tenderá a ser cada vez maior, provocando nos clientes um arrepio cada vez que o custo total que lhes será apresentado, o que as levará a procurar alternativas», alerta.
Mas, embora defenda a concorrência saudável, Paulo Trezentos, que é um dos fundadores do projecto da distribuição portuguesa de Linux que é utilizada nas escolas, acredita que «esta concorrência não tem ocorrido por uma destruição de valor nas ofertas mas por uma concorrência com modelos económicos – como o open source – que permitem um orçamento de IT mais equilibrado». Até porque, como lembra João Miguel Neves, da Intraneia, «normalmente os preços baixos deles são um pouco mais altos que um projecto nosso».
Estratégias em aberto
Luís Arriaga, um dos promotores do Alinex, alerta porém para o facto de que «em termos de estratégia nacional nada mudou. Ela continua ausente, esgrimindo-se o argumento de uma liberalização do mercado (ou desgoverno?). A oportunidade do open source nem sequer parece ser compreendida a certos níveis de topo, o lobbying de alguns fornecedores impera e comanda». Uma «vertente sombria» de uma realidade cada vez mais brilhante onde «cresce, lenta mas robustamente, a implantação bottom-up do open source, isto é, não por iniciativa de topo, mas nascendo das próprias organizações e empresas».
Respondendo às necessidades de evolução das empresas, a adopção das soluções open source é muitas vezes pontual, não estando ligada a uma estratégia de migração para código aberto de ponta a ponta da companhia. João Miguel Neves, sócio-gerente da Intraneia, reconhece que «em algumas PME e serviços da Administração Pública existem decisões estratégicas na adopção de software livre». Mas, «ainda não o encontrámos em grandes empresas e na Administração Pública no seu global não encontramos qualquer estratégia no que toca a sistemas de informação e/ou administração de sistemas», afirma.
Mesmo que não exista uma noção inicial clara de que o caminho passa por implementar todos os sistemas da empresa em código aberto, muitas vezes essa acaba por ser uma decisão evidente. «Na maioria dos nossos clientes – quase todos PME – não havia, inicialmente, uma estratégia clara, definida formalmente. Havia sim um conjunto de objectivos, avulsos», explica Gustavo Homem, director técnico da Ângulo Sólido. Porém a empresa tem aqui uma intervenção que passa pela sistematização desses objectivos pelo planeamento em conjunto da estratégia a adoptar e respectiva implementação. «Normalmente, essa estratégia pode passar por open source end-to-end ou por componentes específicos», acrescenta Gustavo Homem.
A grande diversidade de necessidades existentes nos diferentes sectores, e entre empresas da mesma área, faz com que as soluções não sejam únicas. Mário Martins refere casos de empresas que precisam apenas de uma solução específica numa determinada área funcional, enquanto outras procuram soluções globais e/ou integradas. «Em qualquer um dos cenários os decisores estão cada vez mais informados e esclarecidos sobre os investimentos que pretendem efectuar em TIC e quais os resultados a atingir», adianta, o que faz com que os cenários sejam dimensionados em função da estratégia da empresa.
Paulo Ribeiro, CEO da Linkare, lembra porém que é natural que «as primeiras adopções fossem e sejam ainda feitas de forma "suspiciosa"». «Não podemos esquecer que associado ao conceito de código de fonte aberta estavam muitas ideias pré-concebidas de um conjunto de hackers a desenvolver software mais ou menos malévolo na sua garagem», recorda. A adopção de abertas por empresas como a Sun e a Google «permitiu começar a limpar esta imagem menos positiva de software mal engendrado», mas mantém-se o condicionamento de decisões estratégicas devido a «falhas de interoperabilidade que ainda se verificam em muitas aplicações proprietárias», que são «críticas na gestão do negócio de empresas e organizações».
Embora alinhe com as vantagens da escolha de soluções de código aberto, João Batista, director-geral da Novell em Portugal, acredita porém que «a implementação de uma qualquer solução de TI deve depender da estratégia organizativa das empresas e não o contrário, isto é, a adopção de uma determinada solução deverá estar dependente dos procedimentos que pretendemos optimizar e automatizar». Por isso mesmo não concorda «que deva existir uma escolha de estratégia entre adopção de open source ou adopção de software proprietário. Devem encontrar-se as ferramentas que melhor respondam aos requisitos que se pretende atingir do ponto de vista de negócio, juntando outros factores operacionais».
Preconceitos ultrapassados
Sendo já um factor aceite de que na grande generalidade os custos de implementação de soluções de código aberto são mais baixos do que no software proprietário, reside ainda uma grande questão nas empresas relacionada com a necessidade de suporte técnico para essas soluções, sendo a oferta de apoio a nível empresarial mais reduzida. As empresas contactadas pelo Semana garantem que já existe resposta do mercado à altura das necessidades das empresas, aliás a maioria das entidades com que falámos para este dossier presta esse mesmo serviço de forma generalizada para soluções open source ou pelo menos nas suas áreas de desenvolvimento.
«A percepção que temos é que se criou um mito à volta da falta de assistência e dos custos elevados, o que concluirão é que os custos da assistência são, no máximo, equivalentes e que a assistência existe e é altamente qualificada», destaca Mário Martins, sócio-gerente da JavaLi. Também Gustavo Homem, presidente da ESOP e CTO da Ângulo Sólido, garante que «nenhuma empresa que nos tenha contactado ficou sem solução para suporte técnico» e explica que o apoio tem «SLA [Service Level Agreement – ou Acordo de Níveis de Serviço] contratualizado e valores competitivos».
Do lado da Novell, João Batista afirma também que os preços estão perfeitamente normalizados pelo mercado, até porque «seria suicida se uma empresa pretendesse crescer na área de open source, oferecendo serviços cujos preços inviabilização a sua contratação. Esse é claramente um dogma que tem que ser desmistificado».
Paulo Trezentos, da Caixa Mágica, lembra ainda que uma solução adoptada por muitas empresas passa por integrar o know-how necessário para fazerem internamente o suporte das aplicações, mas que o mercado dos serviços também está a formar-se, de forma linear, sendo um crescimento «em bola de neve: mais procura gera mais empresas fornecedoras, mais empresas fornecedoras geram mais procura».
O papel da ESOP nesta área é considerado crucial, reunindo empresas à volta do mesmo tema, dando visibilidade e respondendo a dúvidas do mercado. Gustavo Homem confirma também que apesar da maior visibilidade e do aumento do número de empresas, «é preciso crescer mantendo a qualidade. É preciso melhorar algumas áreas», e é ainda necessário comunicar eficazmente.
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