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Semana Informática > Estratégia > Inteligência dos cartões ao serviço das empresas
 
Inteligência dos cartões ao serviço das empresas
De Fátima Caçador / Casa dos Bits
Semana nº 929 de 22 a 28 de Maio de 2009


 
O número de cartões inteligentes multiplica-se nas carteiras dos portugueses, com aplicação a diversos sectores de actividade. O Cartão de Cidadão é um dos projectos que começa a estender o seu alcance para além da identificação

Estava desde o início nos planos do Governo e da Agência para a Modernização Administrativa (AMA) que o Cartão de Cidadão tivesse uma aplicação mais vasta do que a simples identificação e a junção de diferentes cartões de relacionamento com a Administração Pública. Lentamente, à medida que o número de cidadãos que possuem o novo cartão vai crescendo, aumentam também as aplicações das funcionalidades de assinatura electrónica e certificado de autenticação.


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O Instituto de Turismo de Portugal é um dos exemplos de entidades públicas que viram a aplicabilidade das funções do Cartão de Cidadão na sua actividade e que avançaram com a implementação. Depois de ter desmaterializado todos os processos internos, o instituto financiou a adesão ao Cartão de Cidadão pelos seus colaboradores que passaram a utilizá-lo para assinar documentos. A este exemplo juntam-se a Câmara Municipal de Águeda e a Câmara de Pombal, onde vários fluxos de documentos internos usam o certificado de autenticação do Cartão de Cidadão, exemplifica André Vasconcelos, responsável pelo Centro de Competências da Administração Electrónica da AMA. Mesmo o Ministério da Justiça, que tinha desenvolvido uma infra-estrutura específica antes do lançamento do Cartão de Cidadão, está a começar a utilizar este cartão e gradualmente essa harmonização far-se-á sentir a vários níveis.

«A nossa visão foi sempre de abrir a utilização do Cartão de Cidadão às empresas. Os cartões estão emitidos, há um serviço e uma infra-estrutura disponíveis e queremos que as várias entidades os utilizem, não só na Administração Pública mas também no sector privado», esclarece André Vasconcelos. A infra-estrutura criada de PKI, para geração de certificados de assinatura digital qualificada e certificados de autenticação, assim como a validação temporal, pode ser utilizada de forma gratuita, o que abre novas possibilidades de integração em aplicações e soluções das várias entidades com um custo mais reduzido.

As entidades só têm de investir em leitores (que custam cerca de 14 euros) ou em computadores já com leitores de smart card, assim como na integração das funcionalidades com os seus sistemas informáticos e passam a gozar de um sistema seguro para autenticar documentos e fluxos de aprovação de tarefas.

Com mais de 1,2 milhões de cartões emitidos até ao início de Maio, a disponibilidade destes smart cards no mercado justifica cada vez mais esta opção, até pela confiança que estes geram nos utilizadores. André Vasconcelos adianta que mais de metade dos cidadãos que já têm o Cartão de Cidadão optam por activar a assinatura electrónica e que o certificado de autenticação é activado automaticamente no momento da entrega do cartão.

Aplicações múltiplas
Algumas empresas começam já a sentir no seu negócio o impacto do interesse de várias entidades em integrar esta funcionalidade nas suas soluções. É o caso da GFI Portugal, que recebeu várias solicitações, provenientes principalmente da Administração Pública. Rui Nogueira, responsável pela área de smart cards, explica que estas integrações se centram na autenticação do cidadão, uso de assinatura electrónica, e leitura e introdução automática dos dados públicos disponíveis no cartão nas aplicações e formulários electrónicos. «Nas autarquias estamos a implementar um conjunto de medidas – SAMA/Simplex – que visam tornar a Administração Pública mais eficiente, utilizando o cartão quer para autenticação e assinatura dos funcionários, quer para os munícipes», explica. A aplicação de gestão documental da GFI, o Gescor, e outras soluções de ECM, já têm soluções integradas com o cartão de cidadão e estão a ser usados numa autarquia.

A Ingenico, uma empresa especializada em soluções de pagamento, demonstra também ter sentido uma procura de soluções para a utilização do Cartão de Cidadão, «sobretudo em situações de quiosques não-atendidos», explica Manuela Borralho, directora da Ingenico em Portugal. A gama de terminais da marca é já compatível com a autenticação através do Cartão de Cidadão, o que abre possibilidades ao desenvolvimento de novos cenários de utilização no futuro.

Apesar de esta procura não poder ser considerada ainda muito relevante, a Kimaldi já desenvolveu com o seu departamento de I&D a optimização de soluções do seu hardware nas áreas de negócio de controlo de acessos e controlo de assiduidades, para permitir a utilização destas com o Cartão de Cidadão. Ricardo Garcia, do departamento de Marketing da empresa, reconhece que existe uma solicitação por parte dos integradores e developers de software a que se alia a procura de equipamentos leitores de smart card por todas as áreas onde é necessária a certificação com assinatura digital.

Ainda assim estes são os primeiros passos de uma aplicação que se pode alargar fortemente num futuro próximo. Luís Gameiro da Silva, director da Divisão de Pagamentos Electrónicos da Glintt, acredita que as empresas ainda estão numa fase inicial de conhecimento das potencialidades e das sinergias que podem ser aportadas por este cartão. «A utilização prática é ainda incipiente mas o potencial de utilização é significativo», reconhece.

Uma questão de custo?
A multiplicação de projectos e infra-estruturas que obriguem a elevados padrões de segurança, onde o cartão é inteligente e tenha de concentrar dados de utilizador, pin de acesso e passwords num único meio vai ser o potenciador de desenvolvimento de novos projectos, que para já estão limitados pelos três factores habituais no arranque de uma nova tecnologia: falta de formação, falta de conhecimentos técnicos e falta de recursos económicos.

Apesar das reduções garantidas pela massificação, com o aumento do volume e a maturidade da tecnologia, os custos da tecnologia ainda são elevados, não só pelo custo do meio físico em si – o custo do cartão e do terminal de processamento –  mas também pelo desenvolvimento envolvido. Mesmo distinguindo entre diferentes tipos de smart cards, com maior ou menor sofisticação e capacidade de processamento –  a factura final é pesada face a soluções que recorrem a outros meios, como o cartão de banda magnética, o que se torna um impedimento em algumas aplicações empresariais, como a autenticação de acessos, por exemplo.

A integração da filosofia de controlo de acesso a um espaço físico com a assinatura digital e autenticação nas aplicações, tudo com um smartcard, está a ser aplicada pela Continforme em alguns projectos em câmaras municipais, universidades e grandes empresas, como descreve Duarte Conceição, gestor de Projectos Smart Cards na empresa. «Os smart cards podem estar presentes numa empresa desde o momento em que o colaborador entra no espaço físico da mesma, através da utilização de um cartão que lhe abre um torniquete, porta ou cancela. Depois quando se dirige ao seu computador é também requerido que utilize o cartão para entrar na rede corporativa. Ao longo do dia enquanto desenvolve o seu trabalho pode utilizar o cartão para assinar digitalmente documentos, correio electrónico, aceder a aplicações ERP e outros processos dentro do workflow», detalha.

Não serão muitos os casos, mas algumas empresas estão, ainda assim, a avançar com estes projectos, mesmo em alturas de maior incerteza económica. As razões prendem-se sobretudo com as vantagens destes sistemas, preferidos porque «os smart cards destacam-se pela grande capacidade de armazenamento de dados, segurança da informação e facilidade de transporte e utilização», salienta Manuel Carvalheira, account executive da CSC Portugal.

E neste cenário os custos podem não ser o factor mais importante da equação, como justifica Manuel Relvas, administrador na Novabase, que prefere olhar para a questão sob um outro prisma.
«Dependendo da aplicação, o custo da tecnologia não só não é uma barreira como pode até ser um elemento potenciador». Nos sistemas mais exigentes e de maior dimensão, como os bancários ou de transporte público, a tecnologia smart card reduz o TCO (total cost of ownership), principalmente através do combate à fraude, aumento da fiabilidade e redução dos custos de aquisição e de manutenção. E «mesmo para soluções muito sensíveis ao custo, como são os bilhetes ocasionais para o transporte público, já existem soluções tecnológicas que têm permitido a adopção dos smart cards», sublinha.

Telecoms, transportes e banca
Para além do Cartão de Cidadão, a aplicação de smart cards em diversos sectores tem tido um enorme crescimento nos últimos anos. Rui Nogueira, da GFI Portugal, refere que este crescimento tem sido sustentado e contínuo, mantendo-se acima dos 20% desde 2006. E, apesar da conjuntura económica actual, a previsão para 2009 é de um crescimento de mais de 12% face a 2008. «Um estudo recente estima que no final deste ano de 2009 haja mais smart cards do que pessoas no mundo», acrescenta.

Os sectores de telecomunicações, serviços financeiros e sector público representaram em 2008 mais de 90% do volume de smart cards, nos números apontados por Rui Nogueira. Mas o potencial de desenvolvimento provém também da área de segurança empresarial, assim como dos transportes, e de forma crescente os serviços múltiplos nas regiões urbanas, como indica João Almeida, director da Unidade SmartCities da Link Consulting. Nesta área, os casos dos cartões LisboaViva (com mais de 2 milhões de cartões emitidos), VivaViagens (com cerca de 10 milhões) e LisboaCard (para turistas) têm sido vistos como cases study, com diversos países a seguirem a abordagem nacional de criação de uma plataforma multi-serviços para mobilidade e serviços urbanos.

João Almeida indica como exemplos Israel, Bélgica, Suíça, França, Espanha e Brasil, entre outros. «O sistema de Lisboa, não só é utilizado por cerca de 20 operadores de transportes, com sistemas próprios mas todos compatibilizados (interoperáveis), como também se está a estender a outros serviços como sejam os parquímetros e parques. Adicionalmente há já quatro ou cinco anos que oferecem algo que ainda não existe na maioria dos países: a possibilidade de carregar os cartões em redes externas como sejam a rede de ATM/Multibanco da SIBS e a rede de POS da Payshop», justifica.

O pioneirismo vale também na Área Metropolitana do Porto, onde a Novabase implementou o primeiro sistema de tecnologia exclusivamente sem contacto, a nível mundial, combinando títulos personalizados com títulos ocasionais de baixo custo, com o Andante, lembra Manuel Relvas, administrador da empresa, que salienta que a tecnologia contactless é absolutamente dominante nas novas implementações de sistemas de bilhética para transportes públicos, em todo o mundo.

Apesar de já muito ter falado do Cartão de Cidadão e do potencial da sua utilização, explorando as funcionalidades de smart card, Paulo Carvalho e Silva, director-geral da Sagem Orga Portugal, admite que a Administração Pública deve estar na lista dos sectores de actividade com maior potencial de crescimento, até porque «associado ao lema "simplificação" está implícito a integração de funções, nas quais o smart card é um utilitário vantajoso».

E a saúde? Este é um campo apontado há vários anos como relevante na exploração das potencialidades inerentes ao smart card, com mais-valias para o utilizador e o prestador de cuidados de saúde pela sua capacidade de armazenamento de informação de dados médicos e pela componente de segurança que poderá comportar. O destaque é feito por Ricardo Garcia, da Kimaldi, mas também por Luís Gameiro da Silva, da Glintt, que tem diversos projectos nesta área mas que se escusa a detalhá-los devido aos acordos de confidencialidade que impedem a sua referenciação.

Apesar de serem mercados onde os smart cards já têm um grande impacto, os sectores financeiro e de telecomunicações também vão continuar a dinamizar o crescimento. A consolidação dos cartões EMV e a adaptação às regras SEPA (single euro payment area) colocam o sector financeiro obrigatoriamente nesta lista, enquanto nas telecomunicações o crescimento de dispositivos móveis que integram cartões SIM, as aplicações de payTV e as set-top-boxes garantem a continuidade de emissão de cartões e de desenvolvimento de aplicações que deles tirem partido.

Convergência a prazo
Sem expectativas de grandes mudanças tecnológicas a curto prazo, os principais drivers para o desenvolvimento do mercado de smart cards e ticketing serão sem dúvida a «necessidade de segurança, maior capacidade de processamento e de memória, optimização de processos e a oferta de soluções inovadoras, que criem valor para o cliente final e que dêem uma vantagem competitiva», adivinha Rui Nogueira.

Em paralelo, a adopção de plataformas abertas, de que os Java Card são actualmente a face mais visível, potenciará a convergência de várias aplicações num mesmo cartão, combinando por exemplo cartões bancários com cartões de transporte ou cartões de transporte com SIM de telemóveis, uma evolução que poderá moldar o futuro, na visão de Miguel Relvas, administrador na Novabase.

 Pagamentos sem PIN

Dentro do segmento de smart cards, uma das áreas com grande potencial de crescimento é a dos cartões contactless, que não exigem contacto com um leitor para executar as tarefas. Para além dos vários exemplos no sector de transportes que já citámos, a área de pagamentos poderá trazer a breve prazo desenvolvimentos interessantes em Portugal, seguindo uma tendência que se sente já a nível internacional, com a proliferação de testes-piloto na Ásia/Pacífico, continente Americano e na Europa, e até com alguns modelos comerciais, como acontece com o Barclays Bank no Reino Unido.

Em Portugal decorre uma experiência que envolve a GFI, a Vivotech, a SIBS e algumas entidades do sistema bancário português. Ainda limitado em termos de dimensão, este projecto-piloto pretende «testar a tecnologia e operativa do ponto de vista da funcionalidade, mas também na vertente da adesão pelos utilizadores e comerciantes dada a elevada simplicidade e comodidades inerentes», adianta a SIBS.

Para já, estão envolvidos cerca de uma centena de cartões, utilizados pelos colaboradores das entidades que participam no projecto, e uma dúzia de pontos de pagamento, mas a SIBS confirmou ao Semana que deverá ter lugar um piloto comercial que antecederá o lançamento generalizado e que irá decorrer no final deste ano.

Rui Nogueira, responsável pela área de smartcards da GFI Portugal, explica que, em termos de solução, os pagamentos contactless trazem grandes vantagens aos comerciantes, pela simplicidade e rapidez e pelo facto de a falta de “trocos” não inibir a compra no momento. A adaptação dos terminais de pagamento é também fácil e de custo reduzido e não há riscos de violação da privacidade, já que o cartão não contém dados relevantes sobre a conta bancária, tendo estabelecido um montante máximo de pagamentos que se deverá fixar nos 15 euros. «Se perder o cartão, este poderá ser utilizado por outra pessoa, porque não tem PIN, mas, no limite, perde o mesmo dinheiro que perderia se lhe roubassem a carteira», justifica.

 
 
 
 
 
     
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