Renting alarga opções para as empresas De
Fátima Caçador / Casa dos Bits
Semana nº 938 de 24 a 30 de Julho de 2009
A flexibilidade e a possibilidade de manter a liquidez financeira sem abdicar das melhores soluções de TI são argumentos que estão a levar as empresas de diferentes sectores a apostar no renting
É principalmente em épocas de maior incerteza económica que as empresas são confrontadas com os problemas de investimento em soluções e equipamentos tecnológicos, com amortização a vários anos e um financiamento que passa quase de forma obrigatória pela aplicação inicial de uma percentagem do valor total, a somar às rendas subsequentes. Sem garantias de continuidade do negócio ao mesmo ritmo, é complicado fazer projecções que aumentam o imobilizado, reduzem a autonomia de tesouraria e a capacidade de endividamento.
A alternativa que o renting informático oferece, com a possibilidade de transformar o investimento num serviço com pagamentos mensais fixos, dedutíveis directamente no exercício fiscal, está a atrair cada vez mais empresas, que optam por esta solução para se manterem tecnologicamente actualizadas.
Embora seja mais conhecido no sector automóvel, o renting – também designado como aluguer operacional – já está disponível na informática há alguns anos, oferecendo a mesma flexibilidade e incluindo diferentes tipos de equipamentos e soluções informáticas. Computadores de secretária, portáteis, servidores, equipamentos de comunicações, impressoras, multifunções, e o mais variado tipo de software podem ser encaixados neste modelo, que é preconizado por várias empresas especializadas e faz cada vez mais parte do paradigma comercial de muitos fabricantes de hardware e fornecedores de software, o que revela o interesse que estas soluções estão a motivar entre os clientes.
«A pressão do contexto económico obrigou as empresas a olhar com atenção para estas soluções», justifica João Domingos, director financeiro da Fujitsu Services. «Sentimos cada vez mais que os clientes nos pedem para apresentar soluções alternativas de financiamento e o renting é dentro destas uma das mais comuns. No último ano concretizámos vários negócios de grande dimensão em que o renting se tornou essencial e que provavelmente há cerca de 2/3 anos os nossos clientes não teriam entendido como necessário», acrescenta.
A empresa já oferece aos seus clientes a possibilidade de renting entre um mix de outras soluções de aquisição de equipamentos ou renovação do parque informático. João Domingos estima que, dos negócios actualmente em carteira e aos quais atribui forte probabilidade de sucesso, cerca de metade necessita de algum tipo de financiamento e, dentro desses, aproximadamente 30% recorrem a soluções de renting.
As vantagens de flexibilidade para a gestão financeira que o renting gera são também apontadas por Isabel Meira, da IBM Global Financing, que acredita que cada vez mais as empresas aliam as decisões tecnológicas às decisões financeiras e de gestão. A oferta de aluguer a prazo faz parte das soluções da empresa, sendo que actualmente mais de metade dos clientes opta por alguma forma de financiamento, correspondendo o renting a cerca de 75% do volume financiado.
Da mesma forma, Miguel Gomes, director de vendas, marketing e parcerias da CSIntelirent, tem uma visão também marcada das vantagens desta solução, defendendo que «o renting, locação operacional, é a única solução lógica nestes tempos de abrandamento económico». E a prova disso mesmo é o crescente número de pedidos apresentados a esta empresa especializada em renting nos últimos meses. A filial da empresa norte-americana CSI Leasing iniciou a sua actividade em Portugal em 2007 e é actualmente responsável por 15 milhões de euros em activos, esperando atingir os 30 milhões em 2009. Até porque Miguel Gomes acredita que o espaço para o crescimento desta solução é muito grande e estima que o renting seja usado em apenas 10% do mercado.
O potencial é também reconhecido por Eduardo Gonçalves, sócio-gerente da Futurdata, que aponta o facto de noutros países o renting já atingir taxas muito interessantes de utilização como um sinal de que também em Portugal esse será o caminho de evolução, face ao interesse que os gestores portugueses têm mostrado por esta solução. Um quarto do negócio da empresa portuguesa já se deve a esta opção e a tendência é para crescer.
Tamanho fora da equação
Ao contrário do que os mitos indicam, a opção pelo renting não está de forma alguma limitada pela dimensão das empresas. Apesar das grandes companhias terem sido pioneiras na identificação das vantagens do renting, sobretudo pela percepção das vantagens fiscais e a preocupação pelos rácios de gestão, a tendência contagiou empresas mais pequenas, atraídas pelo modelo e a generalização da opção de aluguer operacional pela entrada no mercado de empresas especializadas e a integração nas ofertas de fabricantes.
É nesta área que a Grenke Renting aposta em força. A empresa entrou em Portugal em 2008, tirando partido da prática internacional e da presença em mais de 19 países europeus, onde actua em ligação estreita a fabricantes, um modelo que aplica também em território português, contando já com várias parcerias.
Sérgio Nunes, managing director da empresa, defende que as PME estão cada vez mais confortáveis com este tipo de financiamento como uma forma mais racional de gerir os activos da empresa. «Os empresários estão a despertar para estas características, por esse motivo cada vez mais recorrem ao renting como forma de se financiarem», defende, acrescentando que «o dinheiro tem um custo de oportunidade que tem sempre que ser considerado na utilização do capital. O autofinanciamento utiliza o capital da empresa, o que poderá ser mais dispendioso do que a opção por um financiamento, devido à perda da utilização dos fundos. Muitas PME não dispõem de elevadas quantidades de dinheiro, que são necessárias para a aquisição de activos de elevado valor. O financiamento é uma opção atractiva para empresas que não querem despender a maior parte do seu orçamento em equipamentos novos».
E a crise é até uma oportunidade, pelo impacto que teve na liquidez dos bancos, limitando ainda mais o acesso ao capital por parte das PME. Como a Grenke não foi afectada, «enquanto a maioria das instituições financeiras rejeitava os pedidos de crédito, a Grenke manteve os níveis de aprovação nos patamares anteriores à crise», ganhando mais clientes, admite Sérgio Nunes.
Transversalidade sectorial
A escolha do renting com opção para o equipamento informático não está também circunscrita a um sector de actividade. Paulo Magalhães, responsável pela área de estratégia da Marques e Magalhães, garante que a adopção é perfeitamente transversal aos sectores de actividade e que entre os seus clientes conta com empresas de telecomunicações mas também pequenas oficinas com dois postos de trabalho. A empresa foi uma das primeiras em Portugal a identificarem a oportunidade do sistema de renting informático, avançando com o conceito em 2002 e operacionalizando o modelo comercial com a marca Fix Solutions, em 2004.
Paulo Magalhães explica que o conceito de renting adoptado é totalmente flexível, funcionando puramente como um serviço, e que existem contratos de duração variável, que podem ser de apenas um mês, ajustando-se a necessidades específicas das empresas. «Os nossos clientes têm a flexibilidade de crescer ou encolher as suas estruturas em função de projectos que surjam, alugando os computadores e servidores, o software e até serviços de páginas e portais Web», sublinha. Na Fix Solutions o renting inclui todo o serviço de instalação, deslocações, reparações, seguro e manutenção dos equipamentos, sendo o valor típico de aluguer de um PC completo com ecrã TFT, teclado, rato e colunas de 19,87 euros por mês.
Dentro da Marques e Magalhães o negócio está bem estruturado e o aluguer de computadores cabe à Fix Solutions, estando o aluguer de software nas mãos da DataMagma e a área da Internet com a Cool-Zone, restando ao cliente usar as três opções da forma que mais lhes aprouver e com total flexibilidade.
Operacionalidade a toda a prova
A visão sobre as vantagens do renting depende naturalmente das áreas da empresa onde esta solução é analisada. Para os directores financeiros o ROE (Return on Equity) e o ROA (Return on Assets) são difíceis de desprezar, enquanto os directores das áreas tecnológicas valorizam a rapidez de execução e decisão dos projectos e a redução do risco de obsolescência.
A operacionalidade total do parque informático e a facilidade de actualização sempre que o parque informático é renovado são ainda vantagens apontadas por Luís Girardi, director da Ergostek, ao renting. A empresa começou a oferecer esta solução depois de ser confrontada com a dificuldade que os clientes sentiam em aceder a estas soluções. Em contactos com instituições financeiras verificaram a falta de sensibilidade, pelo que acabaram por avançar com um parceiro, representando esta área de negócio actualmente um quarto da facturação da Ergostek.
Opções alargadas
Com soluções de financiamento próprio ou em parceria como locadoras, os fabricantes e fornecedores de software não deixam passar as oportunidades de negócio que o renting garante junto de diferentes tipos de clientes. O aluguer operacional vem trazer novas soluções a juntar a outros instrumentos disponibilizados aos clientes, com vantagens na concretização de negócios, sobretudo em tempo de “vacas magras”.
«São ferramentas que ajudam a fazer mais negócios, sem qualquer dúvida. Nos tempos de crise que atravessamos, as necessidades de financiamento das empresas devem focar-se no seu core business e não na estrutura de suporte», adianta Jorge Silva, director de marketing da Ricoh Portugal. A empresa estabeleceu em 2008 uma parceria com a Grenke Renting e esta solução já representa cerca de 20% dos negócios da Ricoh. «Hoje em dia quase 100% do nosso negócio inclui soluções de financiamento […] Os típicos negócios de compra a pronto ou em cheques praticamente desapareceram...», sublinha Jorge Silva, embora explicando que cerca de 80% das vendas são feitas através do Ricoh Total Service, destinado ao mercado de grandes contas e Estado, um modelo que integra mais serviços e um conceito de “chave-na-mão”.
Também a Primavera BSS optou por uma parceria com a Grenke, que materializou já este ano e que tem vindo a dar bons resultados. Idalina Sousa, directora de marketing da software-house portuguesa, afirma que «já foram realizados cerca de 100 negócios em regime de renting desde Março», mês em que a parceria teve início, um sinal positivo da adesão dos clientes a este modelo.
A Grenke é também parceira da Microsoft e da Interhost no Cube, uma solução que propõe às empresas um pacote de laptop com software Microsoft, sem custos de investimento inicial. Ana Leitão admite porém que «o Cube não teve a adopção imediata esperada por parte das empresas, que têm um processo de decisão mais complexo e portanto lento, que não acompanhou a campanha inicial». A gestora de produto da Convex e Interhost explica que muitos dos contactos que resultaram da iniciativa pretendiam integrar o Cube com outros serviços e componentes de hosting e SaaS, uma perspectiva que fez com que a empresa mudasse «o rumo da abordagem ao mercado», pelo que está a optar nesta fase «por uma comunicação bellow the line com os clientes», sendo o que designa por Cube «uma componente de um conjunto de serviços mais abrangente». Nesse sentido, está neste momento a ser finalizado o VCube, que substituirá o Cube, e que é uma solução mais próxima do que o mercado pretende.
Embora parceira desta iniciativa, a Microsoft tem também soluções de renting noutras áreas de negócio, nomeadamente no Dynamics, a solução de software empresarial. Ana Calheiros, responsável por este sector da Microsoft em Portugal, explica que este modelo específico de licenciamento permite que os parceiros possam construir soluções de aluguer com software, equipamentos e serviços, para além da oferta de hosting. «Estamos a verificar uma grande adesão ao nível das PME, que até há pouco tempo eram talvez as que menos adoptavam este modelo», admite a responsável, que considera que esta tendência se deve ao clima económico nestes dois últimos anos mas também ao facto de o mercado estar já mais educado sobre este tipo de soluções.
O renting surge também entre as soluções propostas pela Avaya aos clientes como uma forma de flexibilizar as escolhas. João Gonzalez, country manager da Avaya Portugal, garante que esta é «uma opção e uma prioridade para a Avaya» e não tem dúvidas de que estão instaladas as condições de crescimento. «Trata-se de uma situação win-win para cliente e canal, uma vez que existe uma garantia de fidelização do cliente durante o período do contrato, enquanto o cliente usufrui também de manutenção incluída e upgrades gratuitos», sustenta.
Renting bancário em falta
A falta de opções de renting informático entre as principais instituições financeiras ajuda ainda mais a canalizar as empresas para as soluções dos fabricantes e das empresas especializadas neste tipo de soluções. João Domingos, director financeiro da Fujitsu Services, confirma que esta é uma falha na oferta. A empresa trabalha com duas instituições financeiras que considera «parcerias chave para o modelo de negócio», mas reconhece que faltam opções generalizadas da banca para o renting informático, não possuindo as instituições financeiras de referência esta solução no seu portfolio de produtos. João Domingos acredita que, a prazo, a pressão do mercado irá obrigar os bancos a adaptar-se e perceber o potencial de mercado que estão a ignorar.
Com maior peso de volume de negócios, as opções de financiamento através de unidades próprias marcam as ofertas da Xerox nesta área, tal como acontece com outras grandes empresas, como IBM, Cisco e HP.
Desde 1993, a Xerox apresenta aos seus clientes uma solução de prestação de serviço global que inclui o equipamento, as cópias e a manutenção durante um prazo definido por um custo fixo periódico (mensal ou trimestral), uma opção conjunta com a Creditex, detida a 100% pela companhia. Mário Lourenço, risk manager da Xerox-Creditex, afirma que actualmente 90% dos negócios da empresa são feitos com recurso ao financiamento e que 90% destes decorrem ao abrigo do renting. «O financiamento a crédito ou a leasing começa a entrar em desuso uma vez que uma empresa com alguma experiência acaba por verificar que não obteve qualquer mais-valia com a capitalização inicial de um bem que acabará por se tornar num centro de custos», justifica.
Paulo Santos, partner sales manager da HP, defende a mesma ideia: «No portfolio de produtos, de locação operacional (renting) a locação financeira (leasing), a opção de renting é de longe o produto mais apetecível por permitir eliminar o risco de obsolescência e controlo de custos». Grande parte dos produtos e serviços da HP são financiados pelo HP Financial Services, por locação operacional, e quando há lugar a aquisições por venda directa, estas devem-se normalmente a opções estratégicas das empresas.
Na Cisco o renting é disponibilizado directamente pela Cisco Capital e os elevados valores residuais que esta assume nos equipamentos, a par da transformação de despesas de Capital em despesas operacionais «tornam o renting uma solução muito atractiva para empresas», justifica Filipa Melo.
Sobretudo quando comparada com outras opções como o leasing ou o recurso a financiamento bancário.
Como já tinha sido referido antes, a IBM tem também uma oferta de aluguer a prazo para investimentos em TI que abrange todas as componentes de uma solução, independentemente da marca e é feita através da IBM Global Financing. Isabel Meira, contrapõe também esta solução ao financiamento tradicional e ao leasing, que não garantem a renovação tecnológica, e defende que os empresários estão cada vez mais conscientes destas vantagens «porque existe uma percepção crescente de que é a modalidade que permite um menor TCO e se adequa à vida limitada dos equipamentos de IT e à necessidade de ter uma plataforma tecnológica de última geração».
Seja qual for a solução encontrada, o certo é que a propensão para utilizar o renting parece imparável e as empresas que experimentam já não voltam atrás, prometendo no futuro soluções ainda mais afinadas.
«Penso que a tendência será a de caminharmos cada vez mais para um renting puro de equipamento tecnológico», defende Sérgio Nunes, managing director da Grenke, que aponta as semelhanças no renting automóvel com o AOV. «Pode-se dizer que esta solução será equiparada ao já famoso outsourcing dos sistemas de informação. O interessante é que também estará disponível a todos os pequenos e médios revendedores de informática», preconiza
Três perguntas rápidas sobre renting de informática
O que é o renting?
Também conhecido por aluguer operacional, o renting permite o usufruto de um bem sem que exista uma compra, funcionando como um serviço que inclui as diversas opções para que esse bem se mantenha em bom funcionamento (como manutenção, actualizações e mesmo seguro). O prazo do contrato depende do acordo estabelecido com a empresa locadora e pode, ou não, ser dada ao cliente a opção de compra do bem/equipamento.
Quais as vantagens do renting?
- Prestações regulares, com pagamentos mais fáceis de planear, independentes de reparações e actualizações;
- Manutenção da liquidez pela inexistência de pagamento de valores iniciais;
- Flexibilidade no acesso aos equipamentos e na gestão do parque informático;
- Vantagens fiscais face à dedução directa no exercício fiscal do custo do serviço em vez de contabilização como imobilizado;
- Opção de fazer upgrade da tecnologia no fim do contrato ou durante a duração do mesmo;
Quem oferece soluções de renting?
No sector bancário o renting disponibilizado centra-se sobretudo na área automóvel e exclui a informática. Existem porém empresas que se especializaram no fornecimento de serviços de renting, para marcas específicas ou em parceria com fornecedores. A Fix Solutions, uma marca da Marques e Magalhães, e a Ergostek, são duas empresas que disponibilizam o renting dentro dos seus portfolios de serviços, tal como a Futurdata e a CSIntellirent. Num conceito diferente, a Grenke tem vindo a estabelecer parcerias com diversos fornecedores que oferecem aos seus clientes mais esta opção de acesso aos produtos e serviços.
Há depois empresas que têm as suas próprias soluções de financiamento de aquisição, onde incluem o aluguer operacional, ou renting. A IBM, a Cisco, a HP e a Xerox são um bom exemplo deste modelo.