Mercado português de storage cresce de olho nos preços
De
Cristina A. Ferreira/Casa dos Bits
Semana nº 948 de 30 de Outubro a 05 de Novembro de 2009
O storage tornou-se um chapéu para muitas soluções que tiram partido de diferentes tecnologias. Saiba onde mais investem as empresas portuguesas neste momento e que tendências marcarão o futuro.
O mercado de storage está entre as áreas da tecnologia que menos têm sofrido com a crise. A contenção orçamental nas empresas tem provocado os seus efeitos, mas não impedem que a área se mantenha uma das mais promissoras no universo das tecnologias da informação. O crescimento exponencial dos dados e dos dispositivos a partir dos quais é possível produzir informação digital contribui para o facto.
As obrigações legais de manutenção de informação a que empresas de diversos sectores estão sujeitas também são um aspecto determinante para manter os investimentos em alta neste campo. Basta olhar para a recente entrada em vigor da nova Lei da Criminalidade Informática em Portugal para encontrar um exemplo de obrigatoriedade de manutenção de dados. Como acontece nas telecomunicações, acontece na banca e em diversos outros sectores.
Localmente os especialistas avaliam o mercado de storage em 40 a 50 milhões de euros. Não é difícil encontrar opiniões a atestar que as empresas portuguesas estão bem informadas sobre as soluções existentes neste sector e que em Portugal estão implementadas algumas das soluções mais inovadoras da Europa.
«O mercado nacional é dos mais maduros e evoluídos da União Europeia; os clientes não só conhecem a oferta actualizada dos vários fornecedores como possuem uma capacidade bastante crítica em relação às várias tecnologias disponibilizadas», garante Vítor Baptista. «Alguns dos projectos mais avançados e inovadores que a EMC tem na Europa estão implementados em organizações nacionais», acrescenta o pre-sales manager da empresa para a região da Europa, Médio Oriente e África da EMC.
Henrique Franco, senior sales specialist da IBM Portugal, partilha a mesma sensibilidade, referindo que em Portugal é visível um elevado «conhecimento e exigência sobre as soluções disponíveis no mercado por parte do tecido empresarial», conhecimento esse que tem vindo a aumentar acompanhado por uma maior abertura para aceitar inovações que conduzam a melhorias na actividade. «É sabido que algumas das inovações mais interessantes no campo das tecnologias de informação tiveram a sua origem em Portugal em áreas como a banca, telecomunicações, comércio, indústria, serviços e Administração Pública», recorda.
A excepção estará ao nível das pequenas e médias empresas, que se têm afirmado como motor de crescimento do mercado, mas onde ainda nem sempre é abrangente a visão sobre a panóplia de soluções disponíveis e as suas especificidades. Vítor Carvalho, administrador da CIL, nota que este é um aspecto mais vincado nas empresas de menor dimensão e com um número mais limitado de recursos nas suas equipas internas.
Preço com papel preponderante nas decisões
A abundância de informação e a capacidade apurada para diferenciar características não é no entanto sinal de que o factor preço deixou de estar no topo da lista de critérios dos decisores, como relatam quase todas as empresas que contactámos. O custo directo da aquisição mantém-se determinante, suportado na confiança de que qualquer solução oferece à partida um nível mínimo de fiabilidade.
«Infelizmente o custo continua a ser o driver da maioria das decisões. Mesmo quando o cliente sabe que a tecnologia A ou B tem vantagens associadas», concorda Pedro Pinto, storage business development manager da Fujitsu Siemens, que deixa um alerta às empresas excessivamente focadas neste ponto: «É minha opinião que nem sempre o cliente sai beneficiado em reduzir o custo de aquisição. Se num passado recente os fornecedores de TI não contabilizavam muitos dos custos, hoje, pela redução de lucro gerado por cada transacção, não podem deixar de os imputar aos projectos», acrescenta, referindo-se a aspectos como a logística, custos administrativos ou gestão do próprio projecto.
Mas os fornecedores também reconhecem que a cartilha de aspectos que as boas práticas mandam seguir na escolha de uma solução de TI circula pelo mercado de compradores de storage e começa de facto a ganhar espaço. O conceito de Total Cost of Ownership usa-se e tende a usar-se cada vez mais como é fácil antecipar. Muitas vezes tem é de disputar liderança com as restrições orçamentais imediatas.
Quando a postura de análise é abrangente divide-se normalmente em duas ordens de factores: técnicos e financeiros. Na análise técnica «o primeiro parâmetro está normalmente relacionado com a capacidade de armazenamento considerando as aplicações a suportar e a performance expectável», refere Vítor Baptista. A partir deste ponto são avaliados aspectos como a fiabilidade, a capacidade de expansão e as funcionalidades de replicação local e remota da solução. Nesta vertente técnica há ainda normalmente espaço para a análise das ferramentas de gestão para o controlo operacional da solução.
Já no que se refere aos aspectos financeiros, o custo inicial da aquisição é ponderado com os custos operacionais, de crescimento ou consumos energéticos. «Também é cada vez mais comum os clientes avaliarem o impacto da tecnologia no próprio negócio. Por exemplo, até que ponto uma determinada aplicação e infra-estrutura que suporta uma área de negócio pode facilitar a dinâmica e flexibilidade do negócio», exemplifica Vítor Baptista.
Soluções mais procuradas
Eleger um leque de soluções mais procuradas pelo mercado não é tarefa fácil, tendo em conta que perfis e dimensões distintas só por si já podem originar necessidades diferentes, e que storage representa hoje uma vasta área de soluções, que quanto muito complementam-se mas não se sobrepõem. Em vez disso respondem a diferentes tipos de necessidades.
Ainda assim é possível afirmar que «as soluções baseadas em tecnologia fibre channel continuam a liderar a procura na implementação de soluções de consolidação e continuidade de negócio. A adopção de Ethernet 10Gb/s e as soluções de virtualização estão a potenciar também a tecnologia iSCSI, que está finalmente a entrar no quotidiano das soluções de Storage», como explica Fernando Rio Maior, storageworks division category manager da HP.
Já Pedro Pinto, da Fujitsu, divide a resposta à questão em três áreas: vertente de disco online; software de gestão e área de backups. Na primeira defende que a maior procura vai actualmente para soluções de médio porte, com diferentes tiers de disco (FC/SAS para alto desempenho, SATA para grande capacidade) e capacidade de cópia de dados interna (snapshots).
Na vertente de software de gestão sublinha que «a protecção de dados continua a ter um lugar muito destacado da restante oferta» e na área de backups aponta também as soluções de virtualização como uma tendência. Admite que já têm «uma procura muito interessante», mas considerando que a tecnologia «terá ainda um caminho pela frente para fazer face a necessidades de maior exigência».
Tecnologias como a virtualização, que permitem rentabilizar o espaço no data center, entram cada vez mais nas empresas como potencial factor de poupança, mas há vários outros conceitos a emergir e a chamar a atenção das organizações, como a oferta de storage em cloud.
O conceito tem alguns anos e embora tenha vingado primeiro na oferta para particulares, ninguém tem dúvidas de que ganhará relevo nas ofertas empresariais. Está aliás já presente nas propostas comerciais de várias fabricantes, esta forma de entregar serviços, pagos em função da capacidade ocupada pelo cliente nos data centers de quem presta esse serviço, em alternativa ou complemento às ofertas mais convencionais em que a infra-estrutura está residente no cliente e também entra na conta de investimento.
As poupanças de custos são apontadas como uma das grandes vantagens dos serviços em cloud, nesta e noutras áreas das TI, mas aspectos como a segurança, confidencialidade da informação e performance têm moderado o optimismo em torno da nuvem, embora seja consensual que esta estará entre as grandes tendências do storage no futuro, como uma opção que coabitará com os sistemas convencionais que mantêm "no terreno" do cliente os seus dados mais críticos.
O storage do futuro
Ambas as tendências – virtualização e storage na nuvem – têm espaço na reflexão de Fernando Rui Maior quando identifica, entre as tecnologias que já hoje começam a marcar o mercado de storage, aquelas que vê com maior potencial para se projectar no futuro, como centrais na evolução das ofertas.
O responsável da HP distingue a este propósito, além da virtualização nos diversos subsistemas de storage, tendências como o thin provisioning, deduplicação, encriptação, os solid state disks, ou funcionalidades como a Quality of Service (QoS), storage clustering, storage as a service, storage blade, fibre channel over ethernet (FCOE), entre outras. Na sua perspectiva são conceitos que vieram para ficar e que tenderão a «ocupar todo o espectro de soluções de armazenamento, desde as arquitecturas mission critical até às soluções de pequena dimensão».
De uma forma ou de outra, directa ou indirectamente, o que todas as tecnologias que farão o futuro do storage têm de gerir e dar respostas é ao volume crescente de informação digital que todos os anos é produzida e à quantidade de informação que todos os anos as empresas deixam de gerir no mundo analógico para passar a trabalhar em formato digital, até por obrigações legais.
Henrique Franco, da IBM, lembra que «em 2011, espera-se que cerca de dois biliões de pessoas estejam na Internet, um trilião de objectos estejam ligados à Internet (veículos automóveis, sensores, câmaras, electrodomésticos, entre outros). Em produtos, animais e outros estarão embebidos 30 biliões de RFID». Os números impressionantes não deixam margem para dúvidas em relação à necessidade crescente de gerir, processar e armazenar informação.
Menos consensual é a forma como este crescimento acelerado da informação – proveniente de vários suportes e de vários tipos – vai afectar o mercado. Uns acreditam que irá forçar uma total reestruturação dos sistemas e dos mercados, outros defendem que o processo de adaptação a estas novas necessidades será tranquilo e pouco disruptivo. Num e noutro caso a maioria acredita que o processo está em marcha. Já começou.
«Vemos hoje as soluções de storage a penetrar em áreas como o networking, o processamento, protecção de dados e outros. Não é difícil de prever que não só o storage, mas todas as outras áreas terão fortes ajustes e reposicionamentos, que alterarão as arquitecturas dos sistemas, aplicações e serviços das áreas de TI», defende Pedro Pinto. «O futuro será forte em consolidações de áreas e desenvolvimento de soluções que permitem processar mais informação com menos recursos. A dificuldade neste momento passa por prever se é o suficiente para acompanhar o aumento da informação digital», remata.
| PME são o motor de crescimento |
A generalidade dos fornecedores é unânime em afirmar que as pequenas e médias empresas já são o grande motor do mercado de soluções de storage e tendem a sê-lo cada vez mais. Neste segmento de empresas, as tecnologias de informação chegaram, em muitos casos, mais tarde e isso atrasou o processo de maturação do uso destas ferramentas, que entretanto aconteceu. Em simultâneo aumentam as exigências ao nível da competitividade e à optimização dos custos em todo o mercado e sem excepção nas PME, que procuram respostas em novos investimentos que com a migração para o mundo digital se tornaram indispensáveis, como os que se relacionam com o armazenamento da informação e gestão desses dados. As PME que estão já a investir neste mercado ainda concentram sobretudo as suas apostas na consolidação da infra-estrutura e respectiva protecção, nomeadamente através de soluções de backup e disaster recovery mas a tendência é para subir na cadeia de valor.
«O segmento das PME é claramente o segmento de mercado onde nos próximos tempos necessidade de adopção deste tipo de oferta se irá reflectir», concorda Vítor Carvalho, administrador da CIL. «As PME começam agora a sentir necessidades de adopção deste tipo de tecnologia por questões de competitividade e rentabilidade», acrescenta. |
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