Renting informático cada vez procurado
De
Patrícia Calé/Casa dos Bits
Semana nº 957 de 8 a 14 de Janeiro de 2010
O momento económico menos favorável parece ter contribuído para dar à locação financeira de longo prazo o impulso que precisava para ser encarada como uma alternativa ao esforço de investimento em tecnologia feito pelas empresas
Sinónimo de aluguer a longo prazo, o renting tem vindo a crescer como alternativa de investimento entre as empresas que pretendem manter-se tecnologicamente actualizadas. Como solução de financiamento que é, este instrumento financeiro parece ter beneficiado do momento económico menos favorável, recebendo o impulso que, na opinião de alguns, necessitava para ser encarado como um recurso a “tempo inteiro” e para ajudar a divulgar as suas mais-valias.
A liquidez reduzida por parte das empresas e a dificuldade de acesso às fontes de financiamento tradicional acabaram por ditar as regras que levaram ao aumento notado na opção pelo renting.
«O renting é essencialmente uma decisão financeira e contabilística que cabe a cada empresa. Tem no entanto vantagens bastante atractivas, como o facto de as prestações serem 100% dedutíveis como despesas operacionais e de não estar sujeito ao imposto de selo sobre os juros e abertura de crédito», aponta José Gonçalves Azevedo, country manager da Primavera Portugal.
A fornecedora de software de gestão estabeleceu recentemente uma parceria com a Grenke Renting, dedicada exclusivamente a este tipo de produto de financiamento, através da qual pretendeu dar resposta a este potencial acréscimo de procura por estas soluções de crédito. «Nesse sentido, o renting, como modelo distinto de financiamento e que permite manter a liquidez das empresas, sem recurso a empréstimos, representa uma importante ferramenta para o nosso canal de parceiros e que permite responder às necessidades actuais das empresas».
O responsável da Grenke Renting partilha da mesma opinião. «Nestes últimos meses muitas empresas perceberam que, para se conseguir navegar em mares turbulentos, nos dias de hoje, é necessário inovar, manter-se actualizado em relação às inovações tecnológicas e ter reservas na empresa para enfrentar as tempestades mais violentas que ocorrem ocasionalmente», defende Sérgio Nunes.
Esta mudança de percepções terá levado as empresas, no entender do managing director da Grenke em Portugal, a olharem para a locação de outra forma. «Muitas empresas optam agora por recorrer a estes instrumentos em contrapartida aos investimentos com capital próprio, ou seja, optam pela liquidez».
Em 2008, quando a Grenke entrou em Portugal, depois de marcar presença em perto de 20 países europeus, as impressões relativas ao renting eram diferentes, mostrando-se inclusive algum «cepticismo». O renting ainda era um produto novo e pouco divulgado, e, segundo Sérgio Nunes, foi necessário «muito esforço» para comunicar de uma forma clara todos os benefícios que a locação pode trazer para as empresas. «Explicávamos que este produto já era sobejamente utilizado pelas grandes empresas, e agora estávamos a dar uma oportunidade às PME de usufruírem dos mesmos benefícios. No entanto, encontrámos bastantes barreiras».
A crise económica ajudou a empresa a «passar mensagem». «Na procura de soluções para os seus problemas diários os gestores ficaram mais abertos a novas ideias», considera Sérgio Nunes.
Benefícios extra
O renting informático é uma opção especialmente atractiva para as empresas que pretendem investir em equipamento tecnológico, enquanto mantêm os recursos financeiros disponíveis, mas apontam-se outras mais-valias ao aluguer operacional.
«Para se manterem competitivas, as empresas, têm que fazer largos investimentos em tecnologia que devido à sua rápida mutação, depreciam muito rapidamente. Em vez de empatar o capital próprio nestes activos, muitas empresas procuram beneficiar do facto de poderem usar um equipamento sem ter que o pagar na totalidade», refere o responsável da Grenke. «Desta forma mantêm o capital circulante, tão importante em dias de crise, e linhas de crédito disponíveis para actividades que produzam lucros».
Sérgio Nunes explica que a maior parte dos métodos tradicionais de financiamento requerem um montante de entrada de alguma dimensão, que nas compras a dinheiro podem atingir valores até 50 por cento. No renting, o gestor pode adquirir o equipamento sem necessidade de qualquer tipo de entrada, uma condição interessante, principalmente para as empresas de menor dimensão.
A este factor, junta-se, por exemplo, a mais-valia da estabilidade e previsibilidade nas rendas a pagar, já que a prestação estabelecida por todo o prazo acordado no contrato é fixa, pois os termos aplicados no renting não estão indexados à taxa Euribor. Uma vez que as prestações do renting são 100 por cento dedutíveis como despesas operacionais, muitas empresas procuram o renting para terem benefícios fiscais.
«Para 99 por cento das empresas, as tecnologias de informação não são o seu core business. Como tal, esta área deverá ser encarada como um meio para atingir o fim, sendo este a venda de serviços de consultoria, de maquinaria, alimentos, etc. A possibilidade de se ter acesso a tecnologia e recursos humanos importantes ao negócio, sem ter que os ter dentro de casa, a custos reduzidos e controlados, deve ser encarado como uma decisão estratégica da empresa, e como o principal benefício do renting», defende Luís Monteiro, director-geral da Rentsu.
Modelo todo-o-terreno
Equipamentos de comunicações, computadores de secretária e portáteis, servidores, impressoras e, nomeadamente, software são alguns dos produtos que actualmente podem ser adquiridos através do modelo de renting.
A área de printing continua a ser aquela onde existe uma maior procura, na opinião da maioria das empresas ligadas ao renting . «O mercado há muito que reconhece que é uma área importante mas acessória ao negócio, deixando o financiamento, gestão e manutenção a entidades que se vocacionaram para prestar esse serviço», salienta Luís Monteiro.
O responsável da Rentsu considera no entanto que tem havido um crescimento na procura de soluções de financiamento para postos de trabalho, desktops ou laptops, normalmente com serviço de troca de equipamento, embora note que na primeira opção normalmente não se desassociam os serviços – mão de obra, peças, consumíveis –, enquanto na segunda ainda se procura muito a solução meramente financeira.
Também a ErgosTek destaca o interesse pelo renting relativo desktops e aos portáteis, neste último caso devido às vantagens associadas ao seguro. «Na maioria dos casos não existe um conhecimento que software e todo o tipo de equipamento informático poderá ser incluído no contrato», ressalva o director da empresa, Luís Girardi.
E quanto custa?
Além da flexibilidade aplicacional e do maior controlo dos custos, uma das principais promessas do renting é a redução da despesa. «A redução de custos é de facto um dos grandes argumentos estratégicos para que uma empresa opte por esta solução em detrimento da aquisição ou de formas de financiamento tradicionais, como o empréstimo ou o leasing», concorda o director-geral da Rentsu, Luís Monteiro.
A maximização dos benefícios do renting depende de organização para organização, lembra o responsável, uma vez que podemos estar a falar de soluções globais, onde se encontra o fornecimento de hardware, software e serviços (gestão, manutenção, remotos, locais, etc.), ou de soluções pontuais, onde o cliente pretende, por exemplo, recorrer apenas à disponibilização dos equipamentos, podendo ter internamente os recursos técnicos para gerir e manter a sua infra-estrutura.
«Posto isto, considerando uma empresa com 50 colaboradores, poderemos estar a falar de valores de contrato na ordem dos 1500 a 2000 euros, num contrato a 36 meses, para uma solução com 50 postos de trabalho, três servidores e serviços globais de gestão e manutenção, remota e local, de todo o parque informático», exemplifica.
Os valores não diferem muito do sugerido pelas outras empresas de renting no mercado, salvaguardando sempre que a prestação mensal dependerá muito da solução implementada. «Ao nível da telefonia e infra-estrutura, podemos falar de uma renda inferior 1000 euros mês, com todo o suporte e upgrades incluídos», acrescenta por sua vez João Gonzalez, country manager da Avaya Portugal.
Neste modelo, não será a dimensão da empresa que determina uma redução, mas sim os equipamentos levados a renting, por esta. «Os factores de renda, que são a base do cálculo, são atribuídos por duas componentes: a Taxa de Juro e o Valor Justo de Mercado (FMV) do bem no final do contrato», explica Miguel Gomes, director de Vendas e Marketing da Intelirent, referindo que, a 36 meses, o valor que uma empresa paga em rendas é inferior ao valor de aquisição a pronto.
Optimismo atestado
Apesar do impulso proporcionado pelo mau momento económico, é natural que ainda existam muitas empresas que encarem este tipo de contratos financeiros com alguma desconfiança.
Dados da Leaseurope relativos a 2006 podem dar uma ideia daquilo que se passa no mercado nacional, quando referem que apenas 3,6% das empresas portuguesas utilizavam na altura este instrumento, enquanto, por exemplo, o Reino Unido tinha uma taxa de penetração de 21,5%.
As estatísticas passadas não parecem abalar o optimismo das empresas de renting, que se mostram expectantes com o desenrolar do negócio durante os próximos anos, considerando que caminhamos a passos largos para atingirmos as percentagens médias de penetração dos países mais desenvolvidos da Europa.
O optimismo é ajudado pelas previsões da IDC. No contexto de uma situação económica ainda volátil, mas com sinais de recuperação económica global no médio prazo, a perspectiva da consultora para o mercado de renting informático é positiva. «Enquanto o mercado mundial de TI irá decrescer 3,1% em 2009, a IDC prevê que o mercado de renting de TI possa crescer 8,8%».
Apesar do hardware representar a grande fatia do mercado (mais de dois terços), serão os segmentos de software e serviços a registarem maiores taxas de crescimento nos próximos cinco anos.
«Penso que já existe um bom conhecimento dos trunfos e vantagens do renting por parte dos nossos clientes», refere João Gonzalez, da Avaya Portugal, onde actualmente esta solução de financiamento é escolhida em 15% das propostas feitas.
«A curto e médio prazo, penso que a tendência de recorrer ao renting irá crescer. Como fabricante, um contrato de renting é associado ao contrato de suporte garantindo sempre os respectivos upgrades gratuitos. Trata-se de uma situação win-win para cliente e canal, uma vez que existe uma garantia de fidelização do cliente durante o período do contrato, enquanto o cliente usufrui também de manutenção incluída e upgrades gratuitos».
Miguel Gomes, da Intelirent, e Luís Girardi, da ErgosTek, falam ambos na «pouca maturidade de um mercado», para o qual antevêem «grandes oportunidades de crescimento». Na opinião de Luís Girardi, falta alguma sensibilidade e flexibilidade dos parceiros financeiros para apoiarem estes novos modelos de negócio, facto que Miguel Gomes contrabalança com a promessa de lançamento de novos recursos.
Segundo o director de Vendas e Marketing, a Intelirent vai lançar este ano, além de uma ferramenta de simulação de rendas, uma ferramenta de controle de contratos, a MyCsi, que vai permitir aos seus clientes «controlarem os seus contratos através da Internet, saberem quantos equipamentos têm , quanto pagam por unidade, quando acabam os seus contratos, qual a sua localização, podendo interligarem a mesma com os seus ERP ou simplesmente exportarem para Excell, permitindo ao CFO da empresa ter controle absoluto nos seus rentings sem necessidade de head count adicional».
Gonçalves Azevedo, da Primavera Portugal não tem dúvidas em afirmar que o número de empresas a recorrerem ao renting para a aquisição de soluções de gestão e de outros produtos irá tendencialmente crescer. «Isto porque o renting como ferramenta financeira permite às empresas desenvolverem os seus negócios sem terem que dispor do valor total do investimento no acto de aquisição, além de outras vantagens», enumera.
Luís Monteiro, da Rentsu, lembra por sua vez que nos últimos três anos o mercado de renting em Portugal tem vivido várias alterações, com o surgimento de vários players com ofertas distintas e com targets diferenciados, uns cuja estratégia passa pela abordagem ao cliente final, outros pela criação de um canal de parceiros. «E se há três, quatro anos o renting apenas tinha uma forte expressão na área do printing, hoje em dia a generalidade dos empresários reconhece as mais-valias de uma oferta global de renting, na qual pode ter disponível não só tecnologia que potencie o crescimento do negócio, mas também acesso a recursos humanos especializados externos, sem se preocupar com os investimentos contínuos que este tipo de recurso exige», destaca.
«Existe pouca informação relevante sobre a evolução do mercado da locação, especialmente do segmento importante para a nós – locação de baixo valor. Em parte, devido ao facto do mercado da locação ser extremamente fragmentado e não ser considerado um segmento de mercado por si só», acusa Sérgio Nunes, da Grenke, referindo que de uma maneira geral, os estudos indicam que a penetração dos equipamentos informáticos para escritórios irá a médio prazo continuar a crescer. «A locação como um método de financiamento irá crescer acima da média. Isto aplica-se em especial às pequenas e médias empresas, enquanto que a locação como ferramenta de financiamento já é bastante utilizada nas grandes empresas», salienta.
«O mercado está habituado a adquirir o equipamento. Alugar o mesmo é um conceito novo, mais aplicável às viaturas e casas. A própria lei portuguesa faz menção a estes dois casos deixando o resto um pouco para trás», refere por sua vez Miguel Gomes, da Intelirent, para quem a opção pelo renting será essencialmente uma questão de hábito.
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