Era digital chegou para salvar o papel
De
Cristina A. Ferreira / Casa dos Bits
Semana nº 958 de 15 a 21 de Janeiro de 2010
É antiga a previsão de que a era digital ditaria o fim do papel. Hoje já se percebeu que não será assim. Estão a surgir novas oportunidades de negócio para a indústria
E se lhe dissessem que o livro que está a ver na prateleira da sua livraria só tem 50 impressões em papel? A que está a ver é a última, já tem dono, mas numa semana terá uma cópia só para si em casa. O exemplo pode ser extremo mas já não é ficção. Ainda esta semana uma parceria anunciada ente a Xerox e a Várzea da Rainha Impressores mostrou como a impressão digital, a tendência mais disruptiva na indústria gráfica ao longo dos últimos anos, está a alterar paradigmas e a ajudar a criar novas oportunidades em negócios de papel, que durante anos tiveram uma capacidade muito limitada de reagir a mudanças e mostrar flexibilidade, como a edição livreira.
A Internet, outra ameaça ao papel, no sentido mais tradicional de uma análise à evolução da indústria gráfica, também tem lugar central na parceria e não é para destruir valor.
A parceria que as duas empresas assinaram vai dar à Várzea da Rainha Impressores a oportunidade de criar uma oferta de impressão a pedido que, em última análise, permitirá aos seus clientes pedir a impressão de tantas unidades de um livro quantas desejarem com um conjunto de hipóteses de personalização associadas, como sejam ir fazendo a alteração de capas para testar a receptividade do público, por exemplo. Na plataforma online que a empresa está a desenvolver (suportada no Free Flow Web Services da Xerox) os clientes fazem o pedido e esperam pela resposta.
Operacionalizar o conceito vai custar à empresa um milhão de euros, mas a expectativa de agarrar novos nichos de mercado e conseguir com a combinação da impressão on demand e tecnologia digital de impressão garantir preços únicos e boas margens de negócio fomentam a aposta.
«Neste processo de impressão a pedido, sob uma solução de impressão digital, são dispensadas todas as tradicionais tarefas preparatórias usadas em offset, quer de pré-impressão fotográfica, como as afinações de máquina, o que, não só economiza, em muito, o seu custo, como torna o processo muito menos moroso e mais flexível. Se quisermos, no limite podem-se imprimir exemplares um a um, sem aumento do seu custo unitário e em qualquer momento reimprimir mais exemplares», explica José Esfola, director de Marketing da Xerox.
Outra vantagem da aplicação do conceito on demand e das tecnologias de impressão digital a este sector é o facto de eliminar riscos inerentes à manutenção de stocks, normalmente responsáveis pela opção das editoras por produtos de venda mais segura, mas também causa da perda de inúmeras oportunidades de negócio que representariam um risco mais elevado, seja em novos autores ou na reedição ou republicação de títulos já editados.
Revolução digital na indústria gráfica
Só por si a impressão digital é reconhecida em toda a indústria como «um excelente avanço no sector gráfico», como classifica Jorge Silva, director de Marketing da Ricoh Portugal. Impôs o fim dos limites mínimos à quantidade de impressões e com isso tem redesenhado a figura do sector nos últimos anos, complementando o tradicional offset que continua e continuará a ter lugar garantido em grandes tiragens e aplicações mais específicas.
«A tecnologia digital assume hoje um papel preponderante pela redução de custos, fiabilidade e rigor e pela rapidez de resultados nos trabalhos, reduzindo os tempos processuais do trabalho de impressão no seu todo. Contudo, esta tecnologia acaba por ser complementar e conjugar-se com outras, pelas suas próprias especificidades», concorda Nuno Igrejas, director comercial da Oki Systems.
«Se a produção/tiragem de um trabalho, por exemplo, for de baixa quantidade a produção compensará financeiramente se produzida em digital. Contudo, se falarmos de tiragens elevadas, o offset mantém os seus privilégios e a sua preponderância como a opção ideal», continua o mesmo responsável.
No futuro é aliás por aqui que o caminho deverá continuar a fazer-se, com a impressão digital a ganhar novos mercados e a roubar terreno a métodos mais tradicionais, que continuarão no entanto a manter o seu lugar. As áreas com mais apetência para se arrumarem cada vez mais nas tecnologias digitais são, na visão de Paulo Carvalho, sales manager para a indústria gráfica da Xerox, o mercado da embalagem, impressão de suportes sintéticos, produção de livros a pedido ou aplicações transaccionais/promocionais. No fundo, aquelas onde já hoje as tecnologias digitais se revelam a opção com mais argumentos. A impressão de álbuns fotográficos e a impressão a pedido de um modo geral também são vistos como elementos com potencial para dinamizar o mercado da impressão num futuro não muito longínquo, ou mesmo a impressão de livros digitais, mas esta com menos consenso dos especialistas.
Uma mudança nunca vem só
Mas nos últimos anos vários factores têm contribuído para sacudir a indústria e alterar o seu ADN, quase sempre revelando a marca de uma era digital. Longe vai o tempo em que o primeiro Macintosh chegou ao mercado facilitando a composição de textos e o tratamento de imagens nas empresas gráficas e de pré-impressão. Também já passaram 17 anos desde a apresentação numa feira do sector da primeira máquina de impressão digital, pela Indigo.
Mais recentes são outras mudanças com igual importância na modernização da indústria, como a introdução do Computer To Plate (CtP), que se sobrepõe hoje ao tradicional sistema de fotolito e que veio permitir a redução dos fluxos de pré-impressão, mas também o tempo da própria impressão, assim como as alterações ao nível do processo da gestão da cor ou a introdução de novas tecnologias de impressão térmica a laser.
A introdução de equipamentos de tecnologia laser LED «cada vez mais compactos, rápidos e de superior qualidade ao menor custo, que efectuam provas de cor de elevada precisão e outros trabalhos gráficos de menor tiragem, também representam por si uma poupança ao serem efectuados in house», como destaca Nuno Igrejas da Oki que vê nesta inovação um factor que se revelou especialmente benéfico para um segmento profissional de pequenas empresas ligadas ao sector, como agências de publicidade e marketing, pequenas gráficas, entre outras, que passaram a poder fazer elas próprias trabalhos que antes tinham de entregar a parceiros externos.
Como sublinham fabricantes, de equipamentos e soluções, a indústria gráfica tornou-se um mercado altamente competitivo onde um grande número de players disputa clientes, muitas vezes pelo melhor preço. As contas para chegar às soluções mais eficientes são feitas constantemente e quem vende para o sector procura ficar bem na equação. Um parceiro importante na concretização deste objectivo é o que fornece o software de gestão que, como em qualquer outro sector, se tornou uma ferramenta indispensável.
Investir para não perder o comboio
No mercado português o leque destas ferramentas verticalizadas para a indústria gráfica é relativamente pequeno, comparando com a oferta disponível para outros mercados. Uma das empresas com uma oferta dirigida e uma forte aposta na área é a Sistrade, que reúne alguns dos nomes mais conhecidos da praça na carteira de clientes, como a Sogapal, Lisgráfica, Lidergraf, Eikon, entre outras.
António Ribeiro, CEO da empresa, explica que a Sistrade aloca 20 engenheiros ao desenvolvimento de sistemas de informação para a área das artes gráficas já que este é um dos seus principais mercados e que encerra muitas especificidades.
A experiência no sector permite-lhe, aliás, confirmar que a crise tornou as empresas mais cautelosas nos investimentos em TI, mas nem por isso retraiu a aposta nesta área. Pelo contrário, assegura que «a crise financeira que se viveu em 2009 teve um efeito potenciador de investimento em tecnologias de automação de processos de negócio, como contrapartida da redução de custos em diferentes áreas das organizações, o que levou várias empresas de impressão e embalagens a investir».
No caso da Sistrade a resposta às necessidades desta indústria é dada com o Sistrade Print, um ERP 100 por cento acessível através da Internet e que permite trabalhar em várias línguas. Entre as funcionalidades, a empresa destaca a gestão comercial e orçamentação, a gestão da produção, sistema de planeamento (scheduling) de recursos, logística com gestão de stocks, compras e mobilidade, bem como CRM, contabilidade, gestão da manutenção de equipamentos, controlo de qualidade, entre outras.
Muitas são funcionalidades adaptadas às necessidades deste sector – que se misturam com as ferramentas básicas de qualquer ERP –, onde a escolha de um software de gestão é dominada pelas preocupações com a «gestão técnica de orçamentos e a gestão da produção de produtos complexos», assim como a capacidade de integração do ERP com outras soluções existentes na empresa, como detalha António Ribeiro.
A mesma sensibilidade tem Jaime Gomes, director financeiro e sócio-gerente da Alidata, que também tem uma oferta verticalizada para este sector. Para ele, o «controlo exacto dos custos para a correcta orçamentação» está no topo das prioridades dos gestores na escolha do seu ERP. «A concorrência é feroz e as margens podem ser totalmente esmagadas», o que obriga a um grande rigor na apresentação de propostas ao cliente, acrescenta.
O facto de na indústria gráfica os trabalhos serem feitos à medida obriga as empresas a considerarem cada projecto isoladamente, no que se refere às garantias de rentabilidade. Para apoiar esta tarefa, o software de gestão terá de conseguir envolver todos os processos e procedimentos da empresa e apurar os custos reais de cada produto e serviço, tendo também em consideração que uma parte significativa dos custos pode residir «nos recursos humanos, cada vez mais especializados», explica ainda Jaime Gomes.
É por isso que também no caso da Alidata o ERP para a indústria gráfica foi desenhado tendo em consideração diferentes tipos de produção nesta indústria, controlo dos tempos das máquinas e dos funcionários com a gestão do seu tempo efectivo, gestão das paragens na produção, orçamentação com imputação de material, comparações entre o orçamentado e o efectivamente gasto, entre outros factores essenciais para o quadro de decisão de um gestor da área.
| Impressão digital, a grande tendência |
É a revolução silenciosa do mercado de impressão a acontecer ao longo dos últimos anos. O facto de oferecer hipóteses de personalização que os formatos tradicionais não permitem e de tornar indiferentes os custos, iguais para uma impressão de 1 ou de 100 exemplares, tem sido um trunfo para fazer vingar esta alternativa e dar às empresas do sector um caminho para "agarrar" novos segmentos. Os custos, a flexibilidade – tempos de resposta rápidos, personalização, etc. – e a própria dimensão dos equipamentos são factores incontornáveis na competitividade desta opção, cada vez mais usada para pequenas tiragens. |
|
| Soluções amigas do ambiente e da tesouraria |
Mais do que nunca as empresas estão atentas às soluções que lhes possam trazer poupanças. «Para sobreviver a estes tempos difíceis, as estratégias de redução de custos estão actualmente no topo das prioridades da maioria das empresas», confirma Jorge Silva, director de Marketing da Ricoh Portugal.
As soluções mais amigas do ambiente – de que também é exemplo a impressão digital, utilizadora de consumíveis já preparados para a reciclagem – reúnem o duplo benefício de reduzir a pegada ambiental das empresas e ajudá-las a poupar custos e com isso conseguem um nível de interesse cada vez maior que os fabricantes, de hardware e software, procuram explorar. Seja através de serviços ou de produtos.
No caso da Ricoh, está disponível de forma generalizada para o mercado um serviço de consultoria que ajuda as empresas a reduzir o TCO da sua produção, enquanto reduzem a sua pegada ecológica. Com o Pay Per Page Green a empresa promete reduções de custos que podem ir até aos 30 por cento, sem investimentos adicionais. O serviço visa minimizar o consumo de energia e emissões de CO2, optimizar o parque de equipamentos e de processos documentais.
A Xerox lançou recentemente a ColorQube, uma tecnologia que dá nome a uma nova linha de impressoras a cores que prometem uma redução de 62 por cento nos custos de impressão.
Já a Oki está desde o início do ano passado a trabalhar com a Universidade de Niigata para desenvolver um toner mais responsável para o meio ambiente, composto por partículas biodegradáveis e compostos de biomassa. O principal ingrediente deste toner biodegradável é uma proteína hidrofóbica como a zeína (uma proteína de prolamina que se encontra no milho), o polissacárido (hidrato de carbono complexo), a quitosana (outro polissacárido que se encontra, por exemplo nas cascas das gambas) ou a celulose.
Mais ou menos focados em segmentos específicos da indústria gráfica, estes projectos mostram, por um lado, uma disposição que já se confirma no terreno das empresas para investir em soluções que as tornem mais amigas do ambiente e, por outro lado, uma predisposição da indústria para tentar antecipar essas preocupações ambientais investindo em I&D que lhe permita desenvolver produtos inovadores que contribuam para distinguir a sua oferta e criar mais hábitos de minimização dos impactos das actividades ligadas à impressão no ambiente. |
|
|