SNC está a ser bem trabalhado pelo sector de TI De
Semana nº 960 de 29 de Janeiro a 4 de Fevereiro
de 2010
Estão a ser feitos grandes esforços para que as empresas estejam em conformidade com o novo normativo contabilístico, que entrou em vigor no passado dia 1 Janeiro
A partir do segundo semestre de 2009, com especial incidência nos últimos três meses do ano, verificou-se por todo o território nacional a realização de diversos eventos e seminários relacionados com a transição para o novo Sistema de Normalização Contabilística (SNC), que entrou em vigor no passado 1 de Janeiro, depois da aprovação da Lei, através do Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de Julho que aprova o SNC.
Entre as grandes mudanças que se verificam no novo normativo contabilístico destaca-se o facto de se passar de um contexto baseado em regras para um outro mais orientado por princípios, de forma a que toda a informação prestada seja sustentada e justificada. A maior alteração a ter em conta é o aumento da nova informação qualitativa que passa a ser exigida às organizações.
Aquelas organizações que não cumpram as novas regras são sancionadas com coimas que podem variar entre os 500 euros e os 15 mil euros. Perante este cenário, aquilo que se ouve por esse mercado fora é que há muitas empresas que não estão preparadas para esta mudança. Mas será verdade? Um facto é irrefutável, a entrada em vigor do SNC obriga legalmente as empresas a reportarem os seus dados ao Estado em conformidade com as regras do novo código e a grande prova de fogo vai ser a primeira declaração de IVA. Estima-se que só 10 por cento das empresas nacionais paguem o IVA de uma forma mensal. A imensa maioria fá-lo de forma trimestral, motivo pelo qual essa será a data limite para as organizações estarem preparadas para reportar os seus dados ao Estado.
O Semana falou com um amplo conjunto de integradores, um pouco por todo o país, para saber o estado dos projectos de transição e adaptação dos softwares de gestão para iniciar o reporting com as novas regras do SNC. São eles que andam no terreno e que conhecem em primeira mão a realidade das empresas.
Por exemplo, Paulo Silva, gerente da Servimicro, uma empresa parceira da Sage, sedeada em Torres Vedras, cuja área de actuação cobre toda a Região Oeste, salienta que a maior parte dos seus clientes só agora está a iniciar esse processo de transição, uma vez que, «no início de Janeiro, estiveram ocupados com outras situações, como a mudança de ano, fecho, facturação e inventários», explica o gestor. No entanto, o mesmo responsável salienta que, desde o final de Dezembro, tem vindo a acompanhar alguns projectos de transição que ocorrem principalmente em gabinetes de contabilidade, onde a carga de trabalho e o tempo necessário é maior devido ao número de empresas que cada gabinete processa.
Paulo Silva salienta que os clientes estão a receber informação periódica sobre este processo desde Maio passado, percebendo que estão bem apoiados e suportados neste processo.
Até ao momento, a Servimicro realizou algumas dezenas de processos de conversão em utilizadores diferentes, no entanto, em termos de empresas convertidas esse número ultrapassa as três centenas, pois «há gabinetes de contabilidade com muitos clientes e que já os converteram», refere Paulo Silva. Segundo ele, a Servimicro ainda possui alguns pedidos por atender, mas todos eles estão delineados de uma forma controlada e sem problemas de maior na gestão desses processos, até porque «alguns dos utilizadores que participaram nas acções de formação, tornaram-se praticamente autónomos no uso do conversor universal Sage SNC».
Localizada em Paredes, a Megavale é outro parceiro Sage. Gil Sousa, director-geral da empresa conta que a empresa realizou nove migrações, não possuindo mais pedidos por atender. A Incentea foi outro dos integradores consultados pelo Semana. A empresa possui a sua sede em Leiria, mas conta com escritórios em Lisboa e no Porto, acabando por deter uma taxa de cobertura quase total do território nacional no continente. Esta tecnológica trabalha com diversas aplicações de gestão, como Primavera, PHC e SAP (Business One) e, até à data, já realizou cerca de 300 projectos de migração para o SNC.
Miguel Lopes, director comercial da Incentea, refere que, «graças a um enorme esforço de toda a organização (direcções de Marketing e de Vendas, junto dos clientes, de Julho a Outubro; e a direcção Operacional, mais intensivamente de Outubro a Dezembro), foi possível efectuar a implementação da esmagadora maioria dos projectos de upgrade até ao final do ano». Nesta fase, encontram-se a fazer os processos de conversão dos planos de contas, situação que requer a avaliação por parte dos clientes do novo plano, e que em grande parte está a ser realizada em 2010.
Contudo, Miguel Lopes diz que está é «uma situação aceitável, dado que, estando as soluções de gestão actualizadas para o SNC, os clientes poderão sozinhos executar as migrações dos planos POC para SNC». Os únicos casos que na Incentea ainda estão por solucionar prendem-se com pedidos de clientes que expressamente solicitaram para atrasar o processo. Miguel Lopes dá como exemplo as empresas cuja entrega da declaração periódica do IVA é trimestral, que não têm a mesma pressão que as empresas com entrega mensal.
A BDO é outra empresa que possui uma cobertura geográfica bastante ampla. Este parceiro da Primavera possui escritórios em Lisboa, Porto, Faro e no Funchal. Luís Jorge Monteverde, director de consultoria da BDO, entende que «a generalidade dos softwares de gestão em Portugal já foram preparados antecipadamente ao cenário de transição para SNC, estando actualmente a proceder-se a actualizações de versões para automatizar processos e eventuais erros resultantes das migrações de Planos de Contas». Relativamente ao software Primavera, este responsável salienta que «os clientes têm feito um enorme esforço para adaptar em tempo útil o seu ERP através de um conversor disponibilizado pela Primavera, estando os processos a decorrer de acordo com os timings definidos». Até à data, a empresa realizou um total de 22 migrações, tendo um total de 112 clientes Primavera por atender. Neste valor incluem-se os clientes da BDO Outsourcing (assistência contabilística), à qual a BDO presta apoio.
Nuno Miguel Neves, partner da PKF, empresa parceira da Primavera BSS, conta que o processo de transição para SNC ainda não está totalmente concluído pois «existem diversas empresas que, pelo facto de ainda se encontrarem em fecho do exercício 2009, ou por outros motivos, optaram por não realizar a conversão para SNC no final de Dezembro». No entanto, a maioria das empresas, fruto da ampla divulgação das novas normas,«tentou iniciar o novo ano já com o novo sistema contabilístico a funcionar», diz o partner da PKF, salientando que, até à data, foram realizados mais de uma dezena de projectos contemplando a implementação da contabilidade já em SNC, sendo que a aceitação e utilização da normalização contabilística por parte dos clientes «tem corrido com toda a normalidade, estando os clientes na nossa opinião muito bem preparados para tal mudança».
O interlocutor da PKF salienta que têm realizado projectos maioritariamente de dois tipos: actualizações de versão para suportar o SNC ou mudança de ERP, muito influenciado também pelas novas normas. O director-geral da Computer One, João Tarrana, empresa sedeada na capital, diz que relativamente ao software PHC, «na reclassificação do código de contas, encontra-se pronto a ser aplicado e a efectuar toda a criação de novas contas em 2010, actualizar as configurações existentes e que permitem interligação dos diferentes módulos na Contabilidade (Pessoal, Imobilizado, Gestão). Quanto às demonstrações financeiras, necessitam ainda de alguns ajustes, nomeadamente no que diz respeito às demonstrações de resultados comparativas entre os dois anos fiscais».
João Tarrana conta que os projectos que tem realizado nesta área estão relacionados com acompanhamento e formação. «Concretamente no processo de transição, ainda não houve nenhum cliente que o tivesse terminado», diz o director-geral, salientando que «cerca de 40 a 50 clientes têm solicitado os serviços da empresa para fazer o devido acompanhamento nesta fase de transição se sistema contabilístico». Para finalizar, João Tarrana refere que apenas possuem um pedido por atender e que está previsto que tenha continuidade no prazo de uma ou duas semanas. Em Lisboa, a ATKS é um parceiro que também trabalha com múltiplas marcas de software de gestão, como PHC, Sage (X3) e SAP (Business One). Luís Estevens, ERP services team leader da ATKS, salienta que a maioria dos clientes da empresa já tem a transição praticamente concluída. Desde Agosto de 2009 até Janeiro de 2010, a ATKS realizou perto de 100 projectos.
Parceiro da Microsoft Dynamics, a Hydra IT, com sede em Braga, conta com uma delegação em Lisboa. O director comercial da empresa, Pedro Araújo, explica que os projectos de conversão do POC para o SNC começaram pela instalação da ferramenta de transição em um número significativo de clientes, de forma aos planos de contas poderem ser codificados de acordo com o SNC. «Adicionalmente, e em alguns projectos, já começou a ser feita a parametrização da relação POC versus SNC para que a qualquer altura o cliente possa deixar o POC definitivamente, garantindo assim a visão das contabilizações nos dois cenários», refere Pedro Araújo, destacando que houve empresas que optaram por efectuar a transição definitiva após o encerramento de contas de 2009, havendo porém «outros casos de projectos de implementação de ERP que entraram em produção em início de Janeiro, em que o SNC foi a base de trabalho desde o início».
Até à data, a Hydra IT realizou cerca de 40 projectos de migração para o SNC e possui cerca de oito projectos novos que iniciaram em 1 de Janeiro de 2010 com o SNC integralmente instalado. O director comercial salienta que, «graças a uma planificação atempada, o processo de transição com os clientes foi realizado de uma forma suave, tranquila e organizada, não tendo qualquer pedido de clientes por responder».
Outra das organizações contactadas para explicar de que forma a transição do POC para o SNC está a ser realizada é a Timestamp SI. Paulo Coelho, manager desta empresa, parceira de longa data das soluções de gestão da Oracle, diz que a solução da Timestamp SI para implementação do SNC em empresas que já têm o seu sistema contabilístico em exploração considera duas fases distintas: Reporting SNC (fase 1) e Transição Definitiva (fase 2).
Paulo Coelho explica que «a razão desta abordagem decorre da necessidade de um período de transição em que ambos os modelos contabilísticos coexistem em simultâneo, isto é, desde 1 de Janeiro as empresas registam as transacções de 2010 e consultam informação contabilística no novo SNC, mas ainda não encerraram o exercício de 2009 no modelo POC». O manager da Timestamp SI prossegue salientando que nos projectos novos, em que a implementação se iniciou após o Verão de 2009, «a construção dos sistemas foi pensada considerando o novo SNC, pelo que do ponto de vista tecnológico, não irão passar por um processo de transição».
Na primeira fase foi implementada uma correspondência entre o sistema POC e o novo SNC e a instalação das novas demonstrações financeiras, permitindo responder às exigências de reporting desde 1 de Janeiro. Desta forma, no actual momento, as empresas têm a possibilidade de consultar a informação em ambos os modelos contabilísticos. «Para a grande maioria dos nossos clientes, esta fase foi concluída antes do final do ano; a segunda fase vai depender do momento em que cada empresa encerra o exercício de 2009, sendo que com grande probabilidade ocorre entre finais de Fevereiro e Maio», refere Paulo Coelho, acrescentando que desta fase resultará uma conversão definitiva de POC para SNC, a migração do histórico contabilístico para o SNC, o encerramento de 2009 em POC e os ajustamentos necessários para proceder a um segundo encerramento de 2009, desta vez em conformidade com o SNC.
Este responsável salienta que, no entanto, «algumas empresas ainda não tomaram decisões em relação a esta transição, mantendo o sistema POC e não tendo planeada a implementação do SNC». Ao todo, a Timestamp já concluiu a primeira fase num universo de 52 empresas. Apenas dois clientes precisam ainda de realizar algumas actividades. O manager da empresa acredita que durante este ano vão ter alguns pedidos novos para realizar este processo de transição, porque algumas empresas não decidiram que abordagem adoptar.
Por seu lado, Mauro Martins, sócio-gerente da ToInovate, empresa parceira da SAP, diz que actualmente podem separar-se as companhias em dois grandes grupos: «As que utilizam o normativo POC para fazer face às suas necessidades de reporting interno e externo e aquelas que pela sua dimensão, complexidade, modelo de reporting aos accionistas ou sede internacional reportam numa lógica IRFS/IAS.» Segundo ele, para as primeiras o impacto na adopção do normativo SNC é consideravelmente maior, uma vez que não se trata de alterar a numeração das contas, mas sim assumir uma alteração significativa na forma de interpretar as novas regras. O problema vai muito para além daquilo que são os softwares de gestão ou de reporting que dão suporte ao negócio, mas passa por uma alteração conceptual ao nível de toda a organização. Até ao momento, a ToInovate fechou três projectos e possui seis em curso, devendo estar finalizados entre Fevereiro e Março.
O sócio-gerente da ToInovate comenta que a grande parte das empresas está perfeitamente consciente desta necessidade e os pedidos estão a ser tratados e encaixados de acordo com as necessidades dos clientes. No que diz respeito a pedidos por atender, a ToInovate não tem nenhum, mas Mauro Martins refere que «possuem entre quatro a cinco conversões para iniciar ainda no primeiro semestre de 2010».
Outro parceiro SAP é a Risa. O responsável desta empresa com sede em Vila Moreira, Alcanena, e com delegação em Santarém, referiu ao Semana que a Risa tem todo o parque instalado preparado para o SNC. João Mendes confirma que a empresa recebeu «apenas alguns pedidos de esclarecimentos pontuais sobre a transição para o SNC, respondidos de imediato».
Por último, Jaime Miguel Lopes, sales & marketing business da F5IT, um parceiro Sage (x3), conta ao Semana que esta companhia enfrenta duas realidades bem distintas: os clientes que já estão de acordo com o novo normativo e os que se encontram a finalizar os testes da conversão para proceder à actualização do ambiente de produção. «Estes últimos, por opção conjunta da F5IT e do cliente, ou até mesmo pela própria estrutura de negócio, decidiram efectuar a transição no decorrer dos primeiros meses do ano de 2010», explica Jaime Miguel Lopes.
Até à data, a F5IT tem 80% dos seus clientes com os sistemas actualizados para o novo SNC; os restantes estão em fase de transição. «Tudo foi planeado com os clientes, desde os tempos às fases de implementação», conclui este responsável.
Data limite para reportar os dados em conformidade com o novo normativo contabilístico
Com excepção das entidades abrangidas pelo n.º 1 do artigo 4.º e pelo artigo 5.º no Decreto-Lei n.º 158/2009, todas as empresas têm de reportar as suas informações contabilísticas de acordo com o SNC a partir de 1 de Janeiro de 2010.
Rigorosamente, a partir do primeiro dia de 2010, todas as empresas deveriam estar a iniciar o seu exercício fiscal, logo que entrasse em vigor o novo SNC. No entanto, é aceitável que as empresas o façam até 60 dias depois. As empresas com declarações do IVA mensais, até 10 de Março, têm que entregar a primeira deste exercício fiscal e têm que estar em conformidade com o SNC. As empresas cujo ano fiscal é diferente do ano civil só terão de estar em conformidade com o SNC a partir de Outubro de 2010. Caso isto não aconteça, poderão incorrer em crime fiscal em 2011, aquando da entrega das demonstrações financeiras, ou mesmo no ano corrente, caso haja auditorias desencadeadas pela Administração Fiscal.
Principais dificuldades encontradas na migração
• O tempo dispendido para a alteração do Plano de Contas POC para SNC, isto é, o mapeamento entre planos;
• Diferenças substanciais entre o antigo POC e o novo plano de contas em SNC (por exemplo, classes);
• O conhecimento das novas normas em vigor por parte dos utilizadores; • Novos conceitos e vocabulário utilizado;
• Resistência à mudança e percepção do apoio que os utilizadores devem dar para o correcto funcionamento das aplicações informáticas;
• As consecutivas actualizações de versões (novas builds) dos softwares para corrigir e simplificar processos de migração às versões lançadas desde Setembro de 2009;
• Reconciliação de dados tendo em conta os novos modelos de demonstrações financeiras;
• Aplicação de novas regras e procedimentos para a abertura do ano 2010;
• Reclassificação de activos e passivos;
• Dominar todas as especificidades de informação dos clientes com vista a reduzir o tempo dispendido nas migrações e aumentar a respectiva taxa de sucesso na primeira tentativa.