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Business angels promovem empreendedorismo
De
Semana nº 964 de 26 de Fevereiro a 4 de Março de 2010


 
João Trigo da Roza, presidente da Associação Portuguesa dos Business Angels
Portugal tem evoluído positivamente nesta área mas o medo de falhar ainda condiciona alguns projectos. O recurso a entidades como a APBA pode dar uma ajuda

O empreendedorismo começa aos poucos a conquistar os portugueses que vão procurando nas entidades existentes o apoio necessário para lançar os seus projectos. Os business angels são uma das opções, encontrando-se «mais vocacionados para apoiar o projecto em início de vida», conforme explicou ao Semana João Trigo da Roza, presidente da Associação Portuguesa dos Business Angels (APBA).

Esta entidade, criada em Março de 2006, congrega qualquer coisa como 140 associados dispostos a patrocinar «boas ideias». João Trigo da Roza refere que, para merecer o apoio da APBA, os projectos apresentados devem «ter algo de original». Neste caso, a tecnologia será um facilitador «mas não têm necessariamente de ser inovadores neste campo; podem sê-lo sob o ponto de vista de modelo de negócio». Por outro lado, João Trigo da Roza revela ainda que deverá ser um projecto «que não seja fácil de copiar para que este consiga manter uma vantagem competitiva no tempo».


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Ser escalável é outro dos requisitos a ter em conta, ou seja, «criar um negócio no qual se possa pegar e expandir para outras geografias». O último ponto crítico, «mas talvez o mais importante de todos», é que as pessoas tenham espírito empreendedor «e que vejam este projecto como o projecto das suas vidas», lembra o mesmo responsável. E explica: «Já tivemos projectos muito interessantes mas que depois as pessoas encaravam como um part-time e não apostavam verdadeiramente neles, pelo que acabaram por não ser apoiados.» 

A APBA analisou, desde que foi criada, já cerca de 200 projectos mas «apoiou pouco mais de meia dúzia». Na realidade, «não temos apoiado muitos em termos de quantidade mas antes em termos de qualidade». A verdade é que cada associado «está a trabalhar com o seu próprio dinheiro e não tem qualquer investimento público», pelo que deve ser «sempre muito cauteloso».

Um bom ano em perspectiva
De qualquer forma, Trigo da Roza refere que a associação conta com «um bom pipeline em termos de projectos para 2010». Embora o ano passado tenha sido «muito difícil, com as pessoas a retraírem-se muito do ponto de vista de fazer este tipo de investimentos», as perspectivas para 2010 «são de um ano forte». O presidente da APBA defende que os business angels se constituem como uma boa alternativa aos empréstimos no sector bancário e explica porquê: «A instituição bancária dentro da sua vocação vai dar um empréstimo pedindo garantias. Ora uma pessoa que está em início de vida não tem essas garantias para poder responder e nem um histórico para apoiar o empréstimo bancário.»

No caso dos business angels, «a situação é diferente». Estes «entram, primeiro que tudo, com capital». Na verdade, não se trata «de um empréstimo mas sim de uma participação no capital da empresa». Por outro lado, os business angels fazem também o coaching, ou seja, «procura-se participar nos órgãos de decisão da start-up apoiada, ao mesmo tempo que disponibilizam a sua rede de contactos». João Trigo da Roza acredita mesmo que «o apoio da natureza de gestão disponibilizado será ainda mais valioso do que apenas o financeiro».

Questionado relativamente à existência ou não de um espírito empreendedor em Portugal, este responsável defende que as estatísticas mostram «uma evolução forte». Trigo da Roza faz referência a um estudo no campo de empreendedorismo que mostra que Portugal «tem evoluído muito positivamente nos últimos anos na componente empreendedora com, pelo menos, 8% da população a estar já envolvida em start-ups». Este valor, do ponto de vista da média europeia, «é elevado». No entanto, o presidente da APBA refere que muito deste empreendedorismo «ainda é feito um bocado por necessidade». Torna-se indispensável «aumentar a qualificação do nosso empreendedorismo». Por outro lado, neste tipo de projectos domina ainda «o medo de falhar», algo que tem a ver «com a nossa cultura nacional de criarmos estigmas nas pessoas que falham, uma atitude que é urgente mudar», assegura o mesmo responsável. 

Medidas governamentais
Uma outra situação a merecer revisão diz respeito à acção do Governo neste campo. De qualquer forma, João Trigo da Roza faz questão de sublinhar que «já existem alguns enquadramentos positivos». Entre estes, destaque para o concurso lançado no âmbito do QREN «e em que o Estado se compromete a co-investir com fundos que venham a ser criados com os business angels em condições de distribuição dos rendimentos assimétrica, ou seja, para compensar os business angels pelo risco que vão assumir». Daqui, acredita João Trigo da Roza, «podem surgir à volta de 20 pequenos fundos de investimentos».

No entanto, há ainda trabalho a fazer, nomeadamente «no âmbito restrito dos business angels, com a criação de condições fiscais diferenciadas». A alternativa poderia passar por criar algo semelhante ao que se passa em Inglaterra, ou seja, «os business angels poderem descontar no seu IRS uma parte do investimento efectuado». Esta ideia acabaria por mobilizar «uma comunidade de pessoas que investiria em menor risco na bolsa e desta forma acabaria por canalizar o seu dinheiro para start-ups», defende o presidente da APBA.

No que à crise diz respeito, João Trigo da Roza acredita que ela poderá ser encarada sobretudo «como uma oportunidade já que as pessoas que estariam confortavelmente instaladas nos seus empregos, no âmbito de uma crise podem ter de pensar em alternativas». Esta situação acabará por «estimular a procura de opções». Por outro lado, aquilo que mostram estudos internacionais «é que as empresas que são criadas em período de crise têm mais capacidades de resistência porque estão muito mais bem preparadas para se desenvolverem», diz ainda o mesmo responsável.

 Nas origens da APBA

A Associação Portuguesa dos Business Angels (APBA) surgiu da vontade «de um conjunto de amigos e conhecidos», que já passaram por funções executivas ou que são empresários e consideraram «que deviam fazer qualquer coisa para dar oportunidade a novos empreendedores para lançarem os seus projectos», explicou o seu presidente, João Trigo da Roza. Os associados são pessoas já na casa dos 40 ou 50 anos «e que no tempo em que eram mais jovens não tiveram grandes apoios para se lançarem», motivo que os leva «agora a quererem apoiar novos empreendedores que apareçam».

A APBA é uma associação que não tem fins lucrativos, ou seja, promove apenas a ligação entre os empreendedores e os business angels que são os seus associados «e estes acabam por fazer os investimentos».
 
 
 
 
 
     
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