Smartcards: um mundo de oportunidades por descobrir
De
Cristina A. Ferreira / Casa dos Bits
Semana nº 852 de 28 de Setembro a 4 de Outubro
de 2007
Já são vários e emblemáticos os projectos nacionais que tiram partido deste tipo de tecnologia, mas tudo está por fazer nesta área. Falta aproveitar potencialidades da tecnologia nas áreas onde já é aplicada e explorar novos caminhos
Com cinco mil milhões de unidades vendidas anualmente, o mercado dos smartcards é uma área em crescimento, cujo potencial ainda está por explorar num elevado número de sectores. Hoje, ainda está sobretudo nas mãos das telecomunicações, banca e Administração Pública o papel de dinamizadores do negócio. Juntos, os três sectores representaram qualquer coisa como 90 por cento do mercado, de acordo com dados fornecidos pela GFI, com destaque para o sector das telecomunicações que, sozinho, representará 70% do negócio. Os restantes 20% são partilhados entre serviços públicos (6%) e banca (15%).
Nas telecomunicações é por via dos cartões SIM que o negócio se mexe e na banca por via da introdução da tecnologia EMV, que ao longo dos últimos anos tem substituído os antigos cartões de banda magnética pelos chamados cartões com chip. De acordo com a mesma previsão, passará também por este sector um dos crescimentos mais expressivos na utilização de smartcards este ano – 11%, face a um crescimento previsto para o mercado em termos globais, que será na ordem dos 6%. Mas se o foco temporal for mais estendido, outras áreas ganham relevância, como saúde, serviços públicos ou retalho, onde se espera que as tecnologias associadas aos cartões inteligentes ganhem crescente relevância.
As questões relacionadas com a segurança, maior capacidade de processamento e memória, optimização de processos e a capacidade de oferecer soluções inovadoras estão entre as principais motivações para quem investe nesta área, ainda fortemente dominada pelos grandes projectos.
No que se refere à segurança e ao esforço que estes investimentos representam como forma minimizar o impacte de esquemas de fraude, os números falam quase sempre por si. No Reino Unido, onde a fraude de cartões bancários atingia números elevados, a introdução da tecnologia EMV possibilitou uma redução deste índice – entre 2008 e 2009 – na ordem dos 28% e uma descida ainda mais expressiva (52%) na taxa de cartões contrafeitos.
Em Portugal, como explica Rui Nogueira, da GFI, «as especificidades do sistema bancário e da rede SIBS, que desde há muitos anos usam transacções online e pin-based, o nível de fraude era muito inferior à média europeia», cerca de sete vezes inferior. De qualquer forma, a migração também teve impacte no mercado.
Mas a segurança não é só pretexto da banca para investir neste mercado. Esta é também uma das principais motivações de investimento no sector dos transportes, onde Portugal tem implementado uma rede de bilhética que integra diversos operadores de transportes e que é considerado internacionalmente como uma referência. Os clientes que escapam sem pagar bilhete têm um impacte importante em receita que não é gerada, e isso também pesou na motivação para avançar com projectos como o cartão Lisboa Viva.
Como sublinha Ricardo Garcia, marketing manager da Kimaldi «a pirataria/fraude é a força dinâmica para que este tipo de tecnologia sofra evoluções constantes». Uma regra que volta a confirmar-se quando se consideram os projectos mais emblemáticos da Administração Pública nesta área, como o Cartão de Cidadão ou o Passaporte Electrónico, que combinam uma forma mais eficiente de guardar informação do cidadão, mais protegida e adicionalmente documentada com dados biométricos.
Uma retrospectiva por alguns destes projectos permite facilmente perceber que há várias aplicações no terreno e a funcionar com sucesso mas a questão coloca-se mesmo assim. Conseguem os projectos nesta área tirar já todo o potencial do uso das tecnologias usadas? Para muitos fabricantes a resposta é não.
Tirar mais partido do que está no terreno
O Cartão de Cidadão é apontado como um dos exemplos. «Este cartão tem um conjunto de funcionalidades que permite fazer um sem número de implementações. No entanto, esta integração vai levar ainda algum tempo. Há, desde logo, um período de rollout do próprio cartão que leva a que seja viável considerar a sua integração com sistemas de informação e serviços electrónicos», aponta Carlos Lima. «Por outro lado, há um percurso a fazer relativamente ao conhecimento das funcionalidades que o cartão disponibiliza e identificação de casos de uso», continua o director da unidade de People ID da Zetes Burótica, uma das empresas parceiras do projecto. Foi a Zetes que assegurou o software (middleware) de acesso ao chip do Cartão de Cidadão, o suporte de segundo nível aos cidadãos e os leitores para operar o cartão.
Para Carlos Lima, no futuro, o cartão terá um impacto significativo na vida de pessoas e organizações, semelhante ou até superior – já que a abrangência funcional é maior – ao que tiveram os cartões bancários que, depois de levarem quase uma década a entrar no dia-a-dia das pessoas, se tornaram um instrumento comum e quase indispensável.
Também na área da banca a introdução de novos cartões com a tecnologia EMV é uma espécie de primeiro passo numa caminhada que se revela longa. «Os cartões bancários de banda magnética estão a ser substituídos pelos smartcards (cartões EMV), mas as suas funcionalidades são exactamente as mesmas. Ainda não é tirado o proveito de todas as capacidades do chip para ter outras aplicações e funcionalidades», recorda também Rui Nogueira.
E o mesmo acontece na área dos transportes, citando três áreas onde Portugal já tem alguma história para contar na adopção destas tecnologias. Na bilhética, como defende Joel Teixeira, director da unidade de negócio SMARTCities da Link, «apesar da introdução da tecnologia smartcard, mantêm-se os produtos e modelos de negócio antigos. A implementação de novos produtos comerciais que realmente exploram as capacidades da tecnologia, quando existe, é tímida e normalmente demora muito tempo a surgir», mostrando que esta tecnologia «continua a ser muito difícil de digerir pelo negócio, talvez pelo peso e inflexibilidade dos mercados onde é usada».
Se nos casos onde o potencial da tecnologia é evidente ele leva tempo a concretizar-se, nas áreas onde é menos evidente o benefício isso pode transformar-se num inibidor de investimento, ou mesmo num factor de insucesso. A consciência de que têm de acompanhar a mudança tecnológica mudanças ao nível do modelo de negócio é um elemento crítico de sucesso. A falta dela, um factor de constrangimento à evolução do mercado e um obstáculo ao desenho de business cases que consigam analisar um cenário de migração tendo em conta todas as variáveis importantes e todo o potencial da mudança. O preço das soluções também continua a ter lugar na lista de constrangimentos a marcar o ritmo de adopção de smartcards, bem como o puro e simples desconhecimento da tecnologia.
«A maior barreira diz respeito ao conhecimento e formação sobre a própria tecnologia. O mercado, na sua grande maioria, ainda não é conhecedor desta tecnologia, no que diz respeito ao desenvolvimento e aplicações», defende Ricardo Garcia da Kimaldi.
Oportunidades sobrepõem-se aos constrangimentos
Manuel Relvas, associate executive da Novabase, defende que as perspectivas mais relevantes para o segmento «não são de constrangimento, mas sim de desenvolvimento, o que se verifica mesmo no actual contexto económico adverso». Os fabricantes de hardware ou software que se movimentam nesta área têm razões para ser optimistas, porque as previsões são de expansão, nos mercados onde a tecnologia já estava presente e em novos, e não é exagero dizer que um mundo novo de oportunidades está para ser descoberto. Ou melhor, começa a ser descoberto.
«Não são apenas os mercados tradicionais que estão a alavancar o segmento dos smartcards», confirma Carlos Lima da Zetes. Como já foi referido, às telecom e à banca, juntou-se a AP e os transportes, bem como os transportes, com os cartões associados aos sistemas de controlo de acessos físicos «e começam também a aparecer cartões ligados a aplicações ou serviços electrónicos, como o cartão do funcionário da empresa, que dá para acesso físico, controlo de ponto e até pode ser usado como porta-moedas e token de acesso lógico», exemplifica.
Num futuro próximo, muitas das potencialidades da tecnologia com maior capacidade para facilitar a vida ao cidadão acabarão por tornar-se mais banais e algumas relevam-se já hoje as mais prováveis. «Um fenómeno que iremos assistir, e já há passos nesse sentido, é a convergência de diversos cartões num só. Acreditamos, pelas informações que temos, que nos próximos anos iremos ter no nosso cartão de telemóvel vários cartões: o cartão de comunicação, o título de transporte, o cartão bancário, o cartão da empresa e até o cartão de identidade», antecipa Carlos Lima. «Associado a isto está o avanço tecnológico dos telemóveis que se tornaram no objectivo pessoal mais usado e que permite a cada um de nós ter no bolso um PC para realizar operações com estes cartões, sem limite, em qualquer lugar. Este avanço será um factor chave no âmbito da mobilidade cada vez maior na sociedade actual», conclui.
E é mesmo nestas direcções que caminham alguns projectos envolvendo empresas portuguesas a operar em Portugal, que exploram os mais recentes desenvolvimentos tecnológicos nesta área, como a evolução das tecnologias sem contacto (contactless), a NFC (Near Field Communication) combinada com a bilhética ou o potencial de integração e interoperabilidade entre várias tecnologias para maximizar o uso de cada uma delas.
A Novabase é uma das empresas envolvidas naquele que será o primeiro serviço comercial NFC europeu, a lançar brevemente em Nice pela Veolia (operador de transportes internacional). A tecnológica nacional é responsável pelo fornecimento de toda a solução de back-office deste sistema, incluindo a gestão da oferta (títulos e tarifários), o pagamento electrónico e o carregamento remoto de títulos de transporte nos SIM dos telemóveis, que estarão equipados com uma interface contactless especial, compatível com a norma NFC. Numa segunda geração, o projecto junta à nova forma de adquirir bilhetes um sistema de menus vocais interactivos (IVR), também fornecido pela Novabase, que alarga o leque de utilizadores da solução a utilizadores com deficiência visual, por exemplo.
A mesma tecnologia, num ambiente diferente de utilização, caracteriza o projecto onde a Ingenico está envolvida com a La Caixa e a Telefónica, em Espanha, e que no final do mês começa a ser experimentado em ambiente real, numa pequena localidade da Catalunha. A operadora vai equipar 1500 utilizadores com telemóveis Star da Samsung, carregados com uma aplicação de pagamento por telemóvel desenvolvida pela Visa. Transformados numa carteira virtual com cartão de crédito personalizado, os equipamentos permitirão fazer pagamentos aproximando o telefone do terminal de pagamento dos 500 comerciantes aderentes. A Ingenico actua naquela que será a primeira experiência do género realizada em ambiente real, em Espanha, como fornecedor dos terminais que suportam a tecnologia, conta Manuela Borralho, directora-geral da empresa.
Ao nível da interoperabilidade várias projectos já no terreno também levantam o véu em relação a mais um caminho no futuro próximo dos smartcards, enquanto tecnologia com um potencial crescente de utilização em diversas áreas.
A Link está envolvida num desses esforços. A ideia é promover a interoperabilidade dos suportes usados nos sistemas de transportes em duas cidades adjacentes e que usam tecnologias diferentes e incompatíveis (MIFARE e Calypso): Lausanne e Vevey, na Suíça. O projecto envolve a implementação da interoperabilidade técnica (interoperabilidade dos diferentes suportes entre as duas cidades) e da interoperabilidade funcional (carregamento e validação de títulos de transporte de forma cruzada nos dois tipos de suportes). «O interesse deste projecto vai para além da natureza técnica da implementação, dado que o sucesso destas implementações depende da capacidade de formatar e configurar soluções técnicas adaptadas aos problemas e necessidades funcionais deste tipo de negócio, que permita mobilizar os diferentes stackeholders para este tipo de soluções», frisa Joel Teixeira, da Link.
Nas próprias funcionalidades dos cartões há vários desenvolvimentos a considerar que abrem também o leque de possibilidades no que se refere aos serviços e aplicações a emergir nos próximos meses, como o desenvolvimento do primeiro cartão SIM com capacidades Wi-fi integradas, desenvolvido recentemente pela Sagem Orga, que poderá funcionar como um modem distribuidor de Internet, compatível com qualquer telemóvel. Como destaca Paulo Carvalho e Silva, director-geral da empresa, é um dos resultados do esforço na investigação e desenvolvimento levado a cabo pela empresa. Este é aliás um traço comum à generalidade das empresas nesta área: o esforço de investigação no desenvolvimento de novos produtos ou soluções que respondam ou antecipem as necessidades do mercado.
Do lado o consumidor, o caminho tem sido feito. Umas mudanças serão mais fáceis de aceitar do que outras. Se é prático e levanta poucas dúvidas para o cidadão comum ter um único passe para vários transportes, pode ser menos transparente para o utilizador que o telemóvel passe a funcionar como meio de pagamento. Os fabricantes e as empresas que adoptam as soluções têm consciência disso e este acaba por ser, a par com a disponibilidade das empresas para investir e antecipar o racional do investimento, o factor que marca o passo no desenvolvimento do mercado. «Um ponto chave na evolução destas tecnologias é a adaptação do utilizador a novas formas de actuar no que se refere aos cartões e aos meios de pagamento. Muitas vezes pecamos por ir muito além do que o utilizador final pode estar preparado, pelo que é importante que sejamos conscientes que o utilizador final está realmente a realizar uma alteração nos seus hábitos de actuação», concorda Manuela Borralho da Ingenico.
| Projectos que marcaram o sector nos anos mais recentes: |
- Implementação dos cartões EMV na banca;
- Projectos de Electronic ID;
- Aparecimento dos títulos de transportes multimodais;
- Desenvolvimento e aplicação da tecnologia sem contacto. |
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| Num futuro próximo os cartões inteligentes vão ser usados (em alguns casos já são): |
- Em casa (televisão e Internet);
- Nos transportes (títulos de transporte, cartas de condução, nas viaturas);
- No comércio (pagamentos e fidelização);
- Na empresa (controle de acessos e autenticação);
- Ao comunicarmos (telemóvel, PDA, etc.);
- Na nossa relação com o Estado (identificação presencial e via Internet, e-Government);
- Nas escolas e universidades (controlo de acessos físicos e lógicos, pagamentos, etc.);
- Na saúde;
- Ao viajarmos (passaportes, hotéis, etc.). |
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