Mobilidade: uma revolução tranquila
De Cristina A. Ferreira/Casa dos Bits
Semana nº 982 de 2 a 8 de Julho de 2010
Há tanto tempo que as potencialidades de levar o escritório para o telemóvel e para o portátil são apregoadas que agora que está de facto a acontecer parece natural. Passo a passo as empresas caminham para a mobilidade
Num país onde a penetração do telemóvel ultrapassa há muito os 100 por cento e que é também com frequência usado pelos operadores e fabricantes como tubo de ensaio para o lançamento de novas ofertas móveis, tirando partido de uma tantas vezes sublinhada apetência dos portugueses para o uso da tecnologia, não é difícil antecipar que as soluções de mobilidade já entraram no dia-a-dia das empresas. A dúvida estará mais ao nível de perceber quem usa e como usa? Optimus e Vodafone coincidem quando apontam os serviços preferidos de mobilidade pelas empresas. O acesso à Internet no telemóvel e o e-mail são destacados pelas duas operadoras. A Vodafone junta-lhe as aplicações suportadas em tecnologias SMS e MMS, que garante, continuam também a ter forte expressão.
«Assiste-se também à expansão de soluções destinadas a segmentos verticais de mercado que funcionam em mobilidade. Não conseguimos quantificar, em percentagem, o número dessas empresas mas podemos assegurar que, em especial no sector dos serviços, são cada vez mais as entidades que procuram melhorar a sua produtividade recorrendo a este tipo de soluções», assinala a Vodafone.
«No segmento dos transportes, por exemplo, acreditamos que a grande maioria das empresas do sector já utiliza soluções de logística e ou de gestão de frotas reconhecendo-as como ferramentas imprescindíveis à gestão do seu negócio e utilizando-as exaustivamente», acrescenta fonte da operadora, que junta ainda ao leque outro tipo de soluções, como as aplicações para gestão de forças de venda ou de equipas deslocadas no exterior.
Os operadores procuram responder ao movimento de uma maior adopção de soluções de mobilidade com ofertas que facilitam a migração para estes ambientes, quer através de parcerias com fabricantes de soluções específicas para cada área, quer através do desenho de ofertas de voz e dados que estão disponíveis desde as micro até às grandes empresas.
Como assume a Optimus, «as empresas de aplicações são tipicamente empresas flexíveis e altamente especializadas nas suas áreas de actuação, sendo assim uma fonte importante de know-how e credibilidade para as propostas de valor dos operadores». Acabam por se afirmar como actores importantes na «tendência da indústria para encurtar a distância entre os vários players da cadeia de valor», defende a Optimus.
A operadora do grupo Sonaecom trabalha com uma rede de 200 parceiros onde se incluem empresas de telecomunicações, informática e tecnologia para garantir uma abordagem mais completa na resposta ao cliente, uma estratégia seguida também pelos concorrentes.
A Vodafone explica que mantém há vários anos um programa dedicado ao desenvolvimento de parcerias empresariais, que lhe permitiu diversificar as soluções à disposição dos clientes. A empresa disponibiliza aos parceiros a possibilidade de testarem as suas soluções num Test Plant que visa ajudar a perceber o comportamento das mesmas em ambientes de mobilidade e a assegurar que quando chegam ao cliente funcionarão nas condições adequadas.
«No caso das soluções classificadas como Powered By, para além da realização destes testes, a Vodafone procura acrescentar ao know-how dos parceiros a sua experiência nas mais variadas componentes do produto», explica a empresa, acrescentando que nestes casos o desenvolvimento é feito em conjunto com os parceiros e é assegurado o suporte pelo serviço de apoio de atendimento tecnológico da empresa. Este recurso a empresas parceiras, que facilitem a capacidade de entregar soluções chave-na-mão é tanto mais importante quanto mais se pretenda endereçar nichos cada vez mais específicos de mercado, admite a empresa.
A revolução dos equipamentos
A evolução dos equipamentos móveis e a explosão dos smartphones, cujos preços têm caído de forma significativa nos últimos meses, tem-se afirmado também como uma aliado no processo de tornar o escritório cada vez mais móvel. Empresas como a RIM ou a Apple e plataformas como o Android introduziram mudanças profundas no mercado e aceleraram a afirmação do dispositivo móvel, enquanto extensão do PC.
«Temos assistido a novas mudanças de paradigma ao nível do software e do hardware móveis, principalmente impulsionadas pela Apple e mais recentemente pela Google, forçando a Nokia e a Microsoft a acompanharem estas mudanças», nota João Campos, administrador da TrueWind. Estas mudanças criaram novas oportunidades «nomeadamente ao nível das plataformas de programação, com destaque para o incremento de portabilidade de aplicações entre smartphones e netbooks».
Os passos mais recentes da Microsoft também confirmam o esforço de adaptação ao novo paradigma. Mostra-o a profunda reformulação do sistema operativo da empresa para telemóveis, renomeado Windows Phone, ou mesmo a extensão ao serviço web do recém-lançado Office 2010, que marca o início de uma aposta mais afirmativa nos serviços cloud. Para o utilizador fica garantida a possibilidade de aceder ao software do fabricante numa lógica de maior independência, face à localização onde se encontra, por exemplo.
E as mudanças chegam mesmo a tempo, porque, como nota Francisco Ramos Chaves, responsável pela área de mobilidade da Microsoft Portugal, «apesar da crise, ou por causa dela» todas as categorias de soluções de mobilidade empresarial «têm vindo a crescer bastante».
Na perspectiva da empresa este universo divide-se em três categorias: Produtividade Pessoal, onde se inclui voz, SMS, contactos, agenda, e-mail ou gestão de documentos; Colaboração, onde cabem acesso aos portais internos da organização, comunicação através de instant messaging, pesquisa de informação na organização ou tratamento de informação confidencial; Aplicações de Negócio, área que integra o ERP, CRM, business intelligence e aplicações verticais específicas de cada segmento de mercado. Todas registam crescimento forte e, na opinião de Francisco Ramos, alguns factores o explicam, além da necessidade que as empresas sentem de «procurar formas inovadoras para serem mais produtivas e eficientes».
Francisco Ramos Chaves defende que, «com o decréscimo acentuado do custo dos smartphones nos últimos 18 meses e a redução dos custos de tráfego, o esforço financeiro para avançar com soluções de mobilidade ao nível empresarial tornou-se comportável, com vantagens para o negócio que são evidentes».
A produtividade pessoal é ainda a forma de mobilidade mais utilizada pelas empresas, «embora só recentemente se veja alargar a sua utilização para além dos quadros de topo», mas a colaboração e as aplicações de negócio estão também em franco crescimento, «pois são aquelas que trazem vantagens competitivas significativas para as organizações», continua.
Responder às exigências específicas do negócio
À procura das vantagens competitivas que a mobilidade pode trazer estão empresas de todos os sectores. Estas soluções são utilizadas «em todos os tipos de negócio onde o registo de qualquer tipo de dados seja fundamental e o seu extravio provoque sérios prejuízos», sublinha Maria José Governo, gestora da unidade de Soluções de Mobilidade da Sinfic. «Transportes, restauração, logística, empresas ligadas a construção civil para registo de picagens, empresas que querem manter e gerir os seus bens de forma rápida e eficiente» são alguns exemplos mais evidentes.
Entre elas, a Sinfic destaca a área de logística e distribuição, onde a procura de soluções de gestão de armazém que assegurem «com rapidez e eficácia o controlo de todas as operações, bem como a disponibilização de informação», é expressiva.
A Adicional integra-se neste sector e há 14 anos que faz o transporte e distribuição postal de encomendas no sector domiciliário, com centros de distribuição em Lisboa, Porto, Aveiro, Faro e Coimbra. Desde 2005 entrou num processo de modernização centrado na mobilidade. Implementou redes Wi-fi nos armazéns, uma solução de gestão de armazém e de distribuição e terminais móveis (tanto nos armazéns, como na força de distribuição). Tudo integrado com o ERP. Com o investimento passou a fornecer informação detalhada aos seus clientes relativa à entrega da mercadoria, mas também dar a conhecer os detalhes de todo o processo de entrega, incluindo os contactos estabelecidos com o destinatário para agendamento da entrega.
«Isto é possível porque os cerca de 200 distribuidores da empresa estão dotados de terminais móveis com capacidade de comunicação de dados (via GPRS) com os servidores centrais da Adicional. A informação é depois disponibilizada aos clientes através do site da empresa», explica a Sinfic que é parceira tecnológica do projecto.
A formalização das encomendas pelos clientes também é feita através do site da empresa, que juntando esta funcionalidade à solução tecnológica para a gestão de armazéns conseguiu a automatização de todos os processos de negócio.
Desde 2005, a empresa quadruplicou as vendas, melhorou a rentabilidade dos recursos humanos, a disponibilização de informação aos clientes e a sua satisfação. João Carriço, CEO da Adicional, diz que a empresa não tinha «qualquer hipótese de conseguir os níveis de crescimento que registou nos últimos anos sem uma solução que permitisse os níveis de automatização de que dispõe».
Orientada para pequenas e médias empresas que já tenham a gestão interna informatizada e que necessitem de informatizar também as equipas comerciais no exterior, à procura de soluções que suportem metodologias comerciais em auto-venda ou pré-venda, a TrueWind também tem um exemplo para fornecer da mobilidade em acção.
A empresa instalou recentemente a sua suite de aplicações para equipas técnicos e comerciais com integração no sistema de gestão dos clientes na Distrifa, uma empresa farmacêutica da grande Lisboa. As equipas comerciais ganharam com a mudança a possibilidade de sincronizar dados a partir do ponto de venda, através de um PDA ou netbook, «ficando toda a informação automaticamente disponível no escritório e nos relatórios que permitem à gestão da empresa consultar todas as informações de cada comercial», explica João Campos.
Barreiras que se vão esbatendo
Exemplos do género não são difíceis de encontrar e tendem a multiplicar-se em número e potencial de ganhos para as empresas, à medida que as barreiras à adopção de soluções de mobilidade vão desaparecendo. «Por parte dos clientes existia no passado um grande receio na integração de dados, actualmente, e com a evolução das plataformas e estabilização das soluções, estão ultrapassadas estas questões», defende Maria José Governo da Sinfic. «Com a conjuntura que se vive, existe uma sensibilização maior para a necessidade de investir em tecnologia, como forma de melhoria dos processo e redução de custos, mas que está condicionada com a crescente dificuldade de aceder ao financiamento», continua.
As preocupações dos fabricantes em desenvolverem equipamentos mais versáteis, compatíveis com diversas plataformas de desenvolvimento, equipados com tecnologias de encriptação de dados e acesso a redes 3G e Wi-fi têm ajudado a dinamizar o mercado.
Permanecem algumas resistências mais ligadas a hábitos antigos. «Do lado das equipas comerciais, a grande e controversa barreira prende-se com o receio de perda de independência ou receio de vigilância excessiva por parte da entidade empregadora», diz João Campos da TrueWind. «Do lado da gestão, existe um patamar a partir do qual as empresas consideram mais importante ter regras bem definidas de comercialização e integração no software central em detrimento de alguma perda de flexibilidade até então permitida pela introdução de vendas em papel», acrescenta.
Contudo, não restam muitas dúvidas de que as soluções de mobilidade serão crescentemente adoptadas pelas empresas e afirmadas como elemento de diferenciação na proposta dos prestadores de serviços móveis e nos fabricantes de soluções de software de gestão, que já estão a levar as suas ferramentas tradicionais para a nuvem, flexibilizando o modelo de negócio que até agora propunham ao cliente, e se preocupam cada vez mais em garantir essa extensão dos produtos também nos dispositivos pessoais dos utilizadores empresariais.
A prová-lo está o negócio protagonizado pela SAP com a compra da Sybase, em Maio deste ano, por 4,6 mil milhões de euros. O segundo maior negócio da história da líder mundial de software de gestão visa dotar a empresa dos meios para explorar a possibilidade de garantir possibilidades crescentes de acesso ao seu software empresarial via dispositivos móveis. A Sybase, que gere qualquer coisa como 1,2 mil milhões de SMS por dia, será o veículo para assegurar essa possibilidade e concretizar a vertente On Device da estratégia de três pilares a partir da qual a SAP guia hoje o seu negócio. Como têm referido responsáveis da empresa é uma estratégia que incorpora com grande relevo a componente móvel na sequência de uma constatação: por cada PC vendido chegam hoje ao mercado cinco novos dispositivos móveis.
Por outro lado, se à data de hoje as redes móveis já se revelam aliados importantes das empresas que querem estar sempre ligadas, a chegada da quarta geração móvel promete aumentar ainda mais esse potencial e arrastar cada vez mais aplicações de negócio para os dispositivos pessoais de cada utilizador. Velocidades de um gigabit em aparelhos parados e referências de upload na ordem dos 50 Mbps são os valores que já se conhecem e que marcarão uma evolução significativa em termos de performance e capacidade da rede, menor latência, suporte a serviços mais exigentes e uma melhor experiência de utilização. Estas são apenas algumas consequências lógicas da evolução dos débitos possíveis na rede móvel a médio prazo, que é só uma das fórmulas de suporte às soluções de mobilidade.
| Operadores disputam atenção das PME |
Os operadores móveis alegam que o preço é hoje uma barreira artificial à adopção de soluções móveis, seja de voz ou de dados, nas empresas. Há uma luta renhida pelas melhores propostas que se faz a partir das microempresas, e que passa pela aposta em segmentos muitos específicos no universo das PME ou por pacotes de soluções chave-na-mão e chega às grandes empresas, configurável até onde for necessário. A Internet no telemóvel, tal como para os particulares, já está disponível para as empresas a partir de 1 euro por dia, sublinha a Optimus.
Os produtos de voz móvel com plafond predefinido por utilizador, minutos partilháveis dentro de um determinado universo de utilizadores ou comunicações gratuitas entre colaboradores fazem também parte das ofertas de qualquer operador. Nos dados móveis, através do PC, os preços podem ir de 12,42 euros para um débito de 1 Mbps com 1 GB de tráfego, até aos 29,08 euros para 7,2 Mbps com tráfego ilimitado, exemplifica a Vodafone. E tal como na voz (com os minutos), também nos dados as empresas podem adquirir volumes de tráfego para dividir por vários acessos.
As parcerias com fabricantes de equipamentos também asseguram na oferta de todos os operadores soluções combinadas de PC+Internet, soluções mais completas para responder a necessidades específicas, como a gestão de frotas ou outras, ou necessidades de grupos profissionais em concreto, como faz a PT Negócios com uma solução orientada para os profissionais do Direito, onde inclui o serviço LegiX (que permite a consulta de mais de 480 códigos e diplomas anotados e actualizados) e uma oferta de produtos e serviços de voz e dados. O grupo usa a mesma receita para outros ramos de actividade, como faz para cafés e restaurantes, disponibilizando combinações de pacotes MEO, software de gestão WinREST e terminal de pagamento automático (TPA).
Propostas não faltam e os operadores garantem que assistência técnica, sobretudo para as empresas como menos recursos internos para assegurar o acompanhamento da adopção de novas tecnologias na empresa, também não. |
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