Nuvens privadas testam potencial da cloud computing
De
Fátima Caçador/Casa dos Bits
Semana nº 986 de 29 de Julho a 5 de Agosto de 2010
A adesão às soluções de computação em nuvem é lenta mas parece imparável. As empresas que podem optam por sistemas privados ou mistos, tirando partido dos benefícios deste conceito sem arriscar na área da segurança
O conceito de cloud computing está cada vez mais presente nos lançamentos de novos produtos e serviços das empresas de tecnologias de informação e, pouco a pouco, começa a ser adoptado pelas empresas que reconhecem os benefícios de combinar recursos externos e internos, reduzindo o investimento em hardware e licenças de software, assim como nos recursos de manutenção das infra-estruturas.
Mesmo que esta adesão não se reflicta ainda de forma clara em negócio, a grande maioria das empresas contactadas pelo Semana garante de forma inequívoca que os seus clientes estão a analisar ou têm já estratégias de cloud computing desenhadas, embora surjam ainda muitas dúvidas, sobretudo relacionadas com a segurança.
O conhecimento dos modelos de cloud computing decorre da maior maturidade da tecnologia e da oferta crescente de grandes empresas de software, onde estas soluções ganham cada vez mais peso. Os últimos anúncios da Microsoft são prova disso mesmo, mas a IBM, Oracle, SAP e outros pesos pesados das TI estão a desenhar caminhos paralelos.
Na oferta Web aos utilizadores individuais a cloud computing está banalizado. Os internautas confiam as suas mensagens de correio electrónico ao Hotmail, Gmail ou Sapo, as fotos das férias ao Picasa e Flickr e os vídeos particulares ao YouTube, sem questionar a segurança e a fiabilidade do arquivo e disponibilidade de dados, mas estas questões são encaradas com maior seriedade quando estão relacionadas com a base de dados de clientes da empresa, os sistemas de facturação ou outras aplicações empresariais, assim como serviços e infra-estruturas.
É por isso que muitas empresas estão a optar pela utilização de nuvens privadas, ou private clouds, em que podem tirar partido de alguns dos benefícios da tecnologia sem exporem demasiado a sua informação e evitando riscos e dúvidas relativos a esta área. Um estudo recente da consultora IDC indica que 55 por cento dos gestores de tecnologias da informação consideram mais apelativa uma nuvem privada do que uma nuvem pública. As aplicações colaborativas e as aplicações de e-mail estão entre as que as empresas preferem manter em private clouds, embora a criação destas infra-estruturas seja mais onerosa do que a entrega a uma entidade externa.
A combinação do modelo de private cloud com o de public cloud poderá ser mesmo a solução adoptada pela maioria das empresas, mantendo dentro de portas as áreas mais sensíveis e beneficiando as vantagens de custos de entregar algumas aplicações menos sensíveis a fornecedores externos. Esta é a visão de Rakesh L. Kumar, vice-presidente da Gartner, que recentemente esteve em Lisboa num evento da Novabase para falar sobre os desafios dos novos datacenters, defendendo que uma cloud privada é um datacenter bem gerido. «As empresas têm de avaliar o seu grau de maturidade antes de avançarem para a cloud computing. Mas há algumas virtualidades do modelo que podem aproveitar para criar clouds privadas», justifica.
Na prática as empresas já têm vindo a construir estas “nuvens” há vários anos, partilhando centros de dados centralizados, plataformas comuns de hardware e software, assim como serviços de TI. Luís Santos, sales director da CA Technologies, reconhece que os CIO estão a aproveitar as vantagens que a cloud computing oferece e, «logicamente, as primeiras experiências são com clouds privadas, que se integram dentro do seu próprio centro de dados, sem partilhar nenhuma peça externamente, o que faz com que sejam tão seguras e robustas como os sistemas tradicionais que têm actualmente, mas com as vantagens de um modelo cloud», justifica. À medida que ganham confiança com estas experiências depois passam para redes híbridas ou públicas.
Fernando Sousa, global technology services da IBM Portugal, confirma que a empresa está alinhada com esta visão. «As médias e grandes empresas possuem um grande interesse pelos modelos de cloud computing mas mantêm sérias reservas relativamente às clouds públicas», explica, afirmando que estas estão relacionados não só com a segurança e localização dos dados mas também com os enquadramentos legais e éticos, a fiabilidade dos serviços e das telecomunicações e ainda a adaptabilidade das ofertas existentes às suas necessidades. No entanto, do ponto de vista da gestão das TIC o modelo de cloud computing possui muitos outros atractivos «relacionados com a flexibilidade e melhor uso dos recursos, o que faz com essas mesmas empresas estejam a equacionar a migração de algumas das suas cargas de trabalho para ambientes de clouds privada de modo a tirar partido dessas mais-valias», sublinha.
Em sentido contrário, Paulo Calçada, presidente da EuroCloud Portugal, a associação europeia que reúne empresas na área de cloud computing, afirma que, pessoalmente, é defensor do modelo público, acreditando que a prazo este prevalecerá. «Acredito que só através de modelos públicos de cloud computing é que será possível aceder à grande maioria dos benefícios disponibilizados. Este modelo, resultado, por exemplo, da economia de escala, permite oferecer serviços a custos inferiores, permite oferecer maior capacidade de escalonamento, maior tolerância a falhas, etc.», sublinha. Mesmo assim, admite que o modelo privado e o modelo misto (privado + público) são definitivamente o passo certo para acelerar a adopção da computação em nuvem, em especial nas grandes empresas e sectores críticos, como são exemplos os sectores da saúde, seguros, banca e público, entre outros.
Os custos destes modelos podem ser o grande entrave a uma generalização da private cloud ou de sistemas híbridos, como alerta João Paulo Pimentão, director de tecnologia da Holos. «O conceito de private cloud, que seja digno desse nome por suportar os elevados níveis de funcionalidade, segurança, tolerância a falhas e fiabilidade das soluções comerciais existentes, exigirá um nível de investimento que a maior parte das organizações não consegue suportar e que são fáceis de atingir quando se escala para soluções multi-organização», justifica, defendendo que as soluções mistas parecem mais promissoras, recorrendo as empresas a public clouds para determinadas soluções verticais, mas integradas com private clouds onde os dados são mantidos dentro das organizações. Desta forma, juntam-se os benefícios de redução de custos, disponibilidade e fiabilidade, mantendo os dados críticos dentro da organização, juntando o melhor de dois mundos.
A Microsoft tem sido abordada por vários clientes para montar private clouds, como adiantou ao Semana Miguel Caldas, national technology officer na Microsoft Portugal. Para este tipo de solicitações a empresa anunciou recentemente o Azure Appliance, uma oferta de cloud in a box, para os clientes e parceiros de maiores dimensões e que pretendam usufruir das vantagens de uma cloud privada sem o inconveniente do trabalho inicial de configuração do sistema, o que poderá tornar-se uma solução viável para muitas companhias.
Argumentos a medir
A médio prazo a principal tendência desenhada para a cloud computing é, sem dúvida, o crescimento da adopção. Esta acontecerá em empresas de diferentes dimensões e sectores, com tipos de soluções diferenciadas, passando por modelos totalmente públicos ou mistos, mas a transição de paradigma será inevitável, sobretudo nos serviços de segurança, e-mail e arquivo.
Nas PME também estas soluções podem ser fortemente atractivas, sobretudo pela «redução de custos directos, por dispensar a necessidade de gestão complexa de uma infra-estrutura de TI interna (nomeadamente licenças, hardware, suporte de software e custos de manutenção), o maior potencial de aplicações de elevadas funcionalidades e fiabilidade deste modelo», justifica Timóteo Menezes, responsável técnico da área de segurança da Symantec Portugal.
Da parte dos fornecedores de plataformas, o crescimento da oferta e das funcionalidade oferecidas, assim como a maior adequação às necessidades das empresas tenderão a sustentar este crescimento, defende João Martins, CTO da create|it, que acredita numa adesão progressiva ao longo dos próximos três anos.
Ultrapassadas as dúvidas iniciais, as empresas não poderão virar costas às vantagens de terem a informação disponível em qualquer lugar, backups garantidos, helpdesk assegurado e sem limites ou custos adicionais, segurança, custos previsíveis em função do número de utilizadores e dos serviços usados, sem custos de aquisição, gestão e energia, alinha Daniel Oliveira, partner da Knowledge Inside.
«Será uma questão de tempo. Acredito que sempre que uma organização ponderar actualizar a sua infra-estrutura deverá equacionar esta oferta, uma vez que o modelo financeiro é muito atractivo», sublinha Artur Miranda, director de Marketing da Colt.
A elasticidade, enquanto capacidade de mudança rápida e a mitigação dos riscos, já que em ambientes de cloud computing a adopção de boas práticas e normas de segurança deixam de ser uma opção e passam a ser uma obrigatoriedade, são também apontadas por Rui Soares, director de technology services consulting da HP Portugal, como factores incontornáveis na lista de vantagens a considerar pelas empresas.
Tendências a médio prazo
O impacte de uma mudança crescente para o ambiente de cloud vai fazer-se sentir nas empresas, com a diminuição da dimensão dos departamentos internos de IT, mas também do lado dos prestadores de serviços, onde se deverá assistir a uma mudança significativa nas competências das equipas, avisa Nuno Guerra, CEO da creat|it.
Na mesma linha, Paulo Calçada, presidente da EuroCloud, acredita que haverá uma mudança na relação entre produtores, fornecedores e clientes. «Ao contrário do que inicialmente se julgava, a cloud computing não tende a criar um mercado dominado exclusivamente por um conjunto reduzido de produtores e fornecedores a vender directamente ao cliente final», explica. Podem surgir novos modelos, como os cloud brokers, empresas que se dedicarão a intermediar as companhias que procuram serviços de cloud e as ofertas dos fornecedores, prevê Fernando Sousa, da IBM Portugal.
A monitorização, auditoria e certificação dos sistemas de cloud computing é uma das tendências obrigatórias, já que em caso de falha é necessário poder identificar responsáveis e corrigir problemas. Um passo essencial para que as empresas confiem a estes serviços os seus dados mais críticos.
| Portugueses na rota da computação em nuvem |
Públicas, privadas ou mistas, as soluções baseadas na cloud estão definitivamente na rota das empresas portuguesas, que à semelhança das suas congéneres internacionais começam a usufruir das vantagens deste modelo. Como sempre, avança-se a diferentes velocidades, mas a diferenciação não se faz pelo tamanho da empresa, nem pelo sector de actividade, mas sim pela visão dos responsáveis e também pelas necessidades identificadas.
«A cloud computing é uma tendência que ganha cada vez mais adeptos, pelas vantagens directas que traz. Seja pela rapidez de implementação, seja pela escalabilidade, disponibilização de novas funcionalidades ou dos serviços pay-as-you-go e pay-what-you-need, com o benefício óbvio de possibilitar custos controlados, a redução do investimento Capex e um TCM (Total Cost Management) e TCO (Total Cost of Ownership) mais baixo», descreve Timóteo Menezes, responsável técnico da área de segurança da Symantec Portugal.
Mas o calendário de adopção depende de muitos factores. João Batista, director-geral da Novell Portugal, acredita que a médio prazo as empresas vão encontrar soluções adequadas aos seus modelos neste tipo de arquitectura. «Caberá a cada gestor de empresa definir a utilização da mesma, ponderando, entre outros, factores como segurança, disponibilidade do serviço, facilidade de utilização, contexto de negócio e obviamente o custo», lembra.
O potencial de adaptar-se a todas as área de software e serviços que hoje conhecemos é uma das vantagens da cloud computing, sublinha ainda Rui Soares, director de technology services consulting da HP Portugal. Mas há ainda a considerar que outras áreas no futuro só existirão e farão sentido numa perspectiva de computação em nuvem. «Na realidade, a adaptabilidade deste modelo de aprovisionamento passa pela maior ou menor maturidade da empresas e organizações de se adaptarem ao modelo de governação e, em alguns casos, ao seu modelo de negócio, procurando tirar o maior proveito das vantagens e diferenciadores proporcionados», acrescenta.
A Universidade de Lisboa é uma das organizações que já abraçou o conceito, disponibilizando aos utilizadores – professores, alunos e colaboradores – uma solução de private cloud, cuja identificação é gerida com a solução Identity Management da Novell. Mas há muitos outros nomes entre as referências possíveis. No caso da Knowledge Inside, a lista de clientes conta com a Acreditar, uma entidade sem fins lucrativos que tem utilizadores em Lisboa, Porto, Coimbra e Funchal, e a Gauss, uma empresa de topometria e monitorização estrutural.
Microsoft aponta referências como a Salvador Caetano e o Wall Street Institute. A estes juntam-se nomes de outras empresas de grande e média dimensão, que estão a tirar partido das soluções de cloud na área de produtividade, como o Banco Big, com business intelligence, a Câmara Municipal de Cascais com Exchange 2010 ou a CUF, com comunicações unificadas.”
Miguel Caldas, national technology officer na Microsoft Portugal, reconhece que as organizações de diferentes dimensões estão a incorporar a oferta cloud a vários níveis e que «a criatividade das soluções encontradas tem sido surpreendente». |
|
|